Highlights 2008

Já são três anos de prêmio Highlights, que sempre é publicado no último dia do ano. É momento de reflexão para mim, como pede a data, e ainda serve como registro daquilo que me agradou - e que dificilmente agradará no ano seguinte. Afinal, o mundo é dinâmico e coisas novas surgem, assim como velhas reaparecem.

Enfim.

Fazendo uma auto-crítica, admito que ando meio displicente com o blog - é preciso registrar isso -, mas mesmo assim não desisti dele. Portanto, podem me esperar aqui em 2009, que se repetir este ano já será bom demais. Por fim, desejo à vocês, meus caríssimos e fiéis leitores, um ano novo com amor e saúde. Porque com isso, o resto surge mais fácil.


Música :
- banda: a criativa The Raconteurs, liderada por Jack White (guitarrista do White Stripes).
- álbum: o simples e belo Ao Vivo na Fundição Progresso, do Los Hermanos (eu sei que prometi tirá-los daqui, mas é que eles insistem em lançar bons álbuns, mesmo estando em recesso!).
- show: Molejo, no Juca-2008 (só quem esteve lá sabe como foi bom).
- surpresa: voltar a ouvir Lulu Santos e perceber que não há como esquecer as letras dele.
- decepção: não ter ido em nenhum grande show (que estão cada vez mais caros, diga-se de passagem).
- revelação: The Wombats, banda que ainda não estourou - talvez nem vá - e que me reanimou para o indie-rock (vale procurar por "Let's dance to Joy Division").

Filme :
- o melhor: O Homem que Ri, filme de Paul Leni, integrante do expressionismo alemão, visto com orquestra ao vivo na Mostra de São Paulo (foi emocionante); com menção honrosa para Linha de Passe, de Walter Salles, que certamente é o melhor filme nacional do ano.
- o pior: o nacional Nina, com Guta Stresser (não sei se vi em 2007 ou 2008, mas de tão ruim vale a menção).
- menção honrosa: o documentário Titãs - A Vida até Parece uma Festa, de Branco Mello, e o nacional Apenas o Fim, do estreante Matheus Souza (apesar de o lançamento oficial ser em junho/2009, o vi na Mostra e por isso posso colocá-lo aqui).
- melhor atriz: Penélope Cruz, no papel de uma louca-apaixonada-ciumenta em Vicky Cristina Barcelona.
- melhor ator: Kaique Jesus Santos, o menino que procura seu pai entre os motoristas de ônibus em Linha de Passe (anote este nome, vai por mim).

Livro:
- o instigante: Na Multidão, o (nem tão) novo policial do Luiz Alfredo Garcia-Roza (sempre ele!).
- o sonífero: li pouco em 2008 (confesso!), mas talvez Fim de Partida, de Samuel Beckett, tenha sido um dos vários soniferos que tentei ler este ano.
- o desejado: sem Garcia-Roza no horizonte, fico com Cordilheira, do Daniel Galera.

Lugar:
- restaurante: Yoi!, especialista em temakis, comida que "descobri" em 2008 e pretendo manter o hábito em 2009; menção honrosa para o Kappa Sushi, que também foi bastante freqüentado nessa minha onda oriental.
- rua: av. Ipiranga (no Highlights passado elegi a São João como rua, mas foi pura distração; afinal, a rua do TCC é mesmo a Ipiranga); menção honrosa - pela terceira vez - a av. Paulista (o mesmo comentário: sempre monumental, quase hour-concours)
- barzinho: Restaurante à Mineira, onde reuni os amigos na comemoração do fim do TCC - festa mais badalada do que meus 22 aniversários anteriores!
- passeio: ir a uma boa sala de cinema bem acompanhado (ia colocar "ir ao Marabá", mas a bendita sala insiste em não reabrir!).
- sala de cinema:  boas são algumas, como o Bombril, o Bristol e o Cinemark Santa Cruz, mas ruim são duas, a do Shopping Paulista e a sala 5 do Espaço Unibanco.

Futebol (porque esporte é muito abrangente):
- melhores momentos: Linense, que conquistou o acesso à A-2, estreou em uma competição nacional e almeja alcançar a elite estadual já em 2010.
- piores momentos: novamente, o Atlético Paranaense me decepcionou: perdeu o Paranaense para o Coritiba, a Copa do Brasil para o Corinthians-AL, a Copa Sul-americana para o Chivas e o Brasileiro, ah! o Brasileiro... Três anos seguidos sem nada para se orgulhar não dá, né?
- bola fora: o Atlético, claro, que me fez sofrer até a última rodada do Campeonato Brasileiro por conta da segunda divisão.
- assunto mais chato da crônica esportiva: Ronaldo no Corinthians.

Eu, Jornalismo:
- a melhor: reportagem especial sobre o fenômeno Guaratinguetá, ainda na Gazeta Esportiva (dias viajando atá o Vale, fim de semana escrevendo e tcharã!, deixei um belo relato sobre a alternativa equipe como minha última ação no site)
- a pior: cobertura da PhotoImage para a Photoshop Creative.
- a mais trabalhosa: matéria sobre Mac no Escritório para a Revista Mac+.
- a mais engraçada: resenha sobre uma bíblia digital para a Revista Windows Vista.
- a que não fiz: sobre um cineclube de 16mm em São Paulo (calma, essa ainda pode vir).

Linha de Passe garante primeiro Oscar ao Brasil

Podia ser esta a manchete dos jornais brasileiros após a festa de premiação do próximo Oscar, mas não será. Afinal, o Brasil indicou o fraco Última Parada - 174, de Bruno Barreto, para tentar conquistar o inédito prêmio de Melhor Filme Estrangeiro. Do ponto de vista meramente expectador, uma tremenda injustiça. Afinal, o filme de Walter Salles e Daniela Thomas é muito mais humano, real e brasileiro do que a versão pessoal de Barreto para a requentada tragédia do ônibus 174.

Porém, a não-participação do filme foi uma opção dos próprios autores. A justificativa? Impossibilidade de fazer uma campanha à altura da responsabilidade de representar o Brasil no Oscar. Walter explica: "Linha de Passe foi realizado sem incentivos fiscais, graças à pré-compra feita por vários distribuidores independentes europeus. (...) Para ajudar esses lançamentos, me comprometi a estar presente de setembro a janeiro em festivais e debates na Inglaterra, Bélgica, Grécia, Dinamarca, França, Itália etc. Não há possibilidade de se fazer um trabalho de fundo em duas frentes ao mesmo tempo"

Em todo caso, Linha de Passe é o melhor filme brasileiro de 2008, pois retrata todos os percalços que pessoas comuns enfrentam no cotidiano. Está lá a violência, a falta de oportunidade e os reflexos provocados pelo encontro das duas. Tudo conforme manda a cartilha do cinema nacional contemporâneo. Porém, o filme de Salles vai além e faz uma bela comparação entre o fanatismo do futebol e da religião, entre outras pequenas nuances, que dão ao filme a sensibilidade necessária para alcançar aos que assistem, sejam eles moradores de Cidade Líder ou dos Jardins. Em todos os casos, assistir Linha de Passe é como ver a vida das ruas na tela de cinema.

Ao longo do filme, você fica íntimo e torce pelos quatro filhos de Cleuza, interpretação que rendeu a Sandra Corveloni o prêmio de melhor atriz em Cannes. Seja por Dênis, o motoboy vivido por João Baldasserini; por Dinho, o frentista religioso feito por José Geraldo Rodrigues; por Dario, o aspirante a jogador de futebol interpretado por Vinícius de Oliveira (o mesmo de Central do Brasil); ou por Reginaldo, o caçula levado às telas pela revelação Kaique Jesus Santos. Em todos eles é possível ver personagens comuns ao dia-a-dia - e este é o grande trunfo do filme, os personagens. A realidade do filme é tanta que você sai do cinema para a rua e quase não sente a diferença.

O velhinho simpático

Em uma época onde as salas de cinema são todas padronizadas, com seus sacos de pipocas enormes, modernas poltronas reclináveis e ar condicionado perfeito, pode-se dizer que o Gemini é um verdadeiro templo para quem gosta de cinema antigo. É preciso esclarecer, no entanto, que ser antigo não significa ser ruim - embora o trecho acima tenha dado essa impressão. Muito pelo contrário.

Localizadas dentro da galeria do prédio Winston Churchill (o popular prédio da Jovem Pan), na região da Avenida Paulista, as duas salas idênticas - daí o nome, Gemini, que significa gêmeos em italiano - possuem muitas características que os novos complexos cinematográficos não têm. A começar pela história, afinal o Gemini tem 33 anos (1975), enquanto grande parte das salas de shopping não tem nem uma década.

E não é só isso: desde a entrada você repara o cuidado com que ele foi concebido. Dos carpetes em tons vermelho-amarelo-preto (esq), marrom-verde (centro) e azul-amarelo (dir) até as poltronas de couro (vermelha em uma sala, azul em outra), o velho cinema da Paulista é um grande exemplo de resistência e preservação da tradição. Parecido a ele na região, só mesmo o Top Cine, que também foi inaugurado nos anos 70, mas está fechado há cerca de dois anos.

Mas voltemos à qualidade, afinal não é só de carpetes e poltrona que se faz uma boa sala de cinema. A programação, por exemplo, foi considerada uma das melhores da cidade pelo jornal O Estado de São Paulo, em seu Oscar das salas de cinema da cidade. Nesse quesito, o cinema empatou com o também esquecido Cine Arte Lillian Lemmertz - que ainda arrebatou o "prêmio" de pior sala de São Paulo.

O Oscar de melhor programação foi conquistado certamente devido a uma prática pouco adotada por outras salas: a de exibir um filme por horário. Afinal, mesmo tendo apenas duas salas, o Gemini consegue exibir oito filmes diferentes, de comédia a documentário. Nesta semana (14 a 20/11), por exemplo, eu indicaria quatro filmes para quem quiser se aventurar por lá: Na Mira do Chefe, Baby Love, Meu Irmão é Filho Único e O Aborto dos Outros.

O primeiro eu ainda quero ver, mas parece ser engraçado e ganha quatro estrelas em tudo quanto é classificação; o segundo também é comédia, assisti em um Noitão do Belas Artes e posso dizer que vale a pena; já o terceiro é outro que cogito ver em breve, principalmente por causa de uma crítica positiva do Merten; e, por fim, o quarto é um documentário bem construído, que me chamou muita atenção quando esteve em pré-estréia na Cásper Líbero.

Enfim. Se você gosta de bons filmes e repara minimamente no lugar em que está assistindo ao filme, vale a pena conhecer o Gemini. A exibição pode não ser das melhores e a poltrona pode não ter porta-copo, mas mesmo assim vale a pena. Afinal, é fato que há diferenças em ver um filme dentro de um shopping ou em um cinema de calçada. E se nenhum fator exposto até então te convencer a ir até lá, friso que o Gemini vale a visita pela simpatia. Me arrisco a dizer até que, se fosse um personagem, ele seria um velhinho gente boa. Ou oferecer paçoquinha como cortesia antes da sessão não é típico de um ancião bonzinho?

Mas já?

Como diz o ditado, a primeira vez a gente nunca esquece. Nem mesmo o primeiro dia na primeira faculdade. Afinal, aquela manhã de fevereiro de 2005 no prédio 900 da Avenida Paulista, quando quase todos ainda eram adolescentes recém-saídos da escola ou do cursinho, sem qualquer noção do que seria a vida acadêmica, certamente ficou registrada em cada um de nós.

A partir desta lembrança já bastante remota, que cada um deve ter recuperado neste momento, é possível começar o balanço do quanto foi possível evoluir em quatro anos como aluno da Faculdade Cásper Líbero. Em números quase exatos, porque jornalista insiste em não saber fazer conta, foram 1.398 dias e 33.552 horas desde a divulgação da lista de aprovados em primeira chamada do vestibular 2005 até o último dia de aula do quarto ano de Jornalismo. Porém, na prática, foi muito mais que isso.

De lá para cá, aprendemos a profissão tanto dentro das salas de aula e dos laboratórios quanto fora deles, nos corredores e nas redações em que estagiamos durante este período. Conhecemos pessoas que foram nossos colegas de sala e agora, oficialmente, de profissão. Alguns se tornaram diferenciados e farão parte do resto de nossas vidas, enquanto outros serão reencontrados ao longo do caminho. Assim também será com os professores, que durante estes quatro anos nos direcionaram e agora poderão ser colegas de trabalho.

É nesse momento que, como dizem, passa um filme da vida na cabeça. As aulas teóricas do primeiro ano, por vezes sem muita emoção, mas que deram noções de sociologia, antropologia e teoria da comunicação aos alunos recém-saído das fraldas; as primeiras aulas práticas do segundo ano, tão ansiosamente aguardadas, como rádiojornalismo; o terceiro ano do aprofundamento, com o reforço de matérias já dadas e outras novidades, como jornalismo básico e legislação, respectivamente; e, por fim, o quarto ano, em que não se fala em outra coisa a não ser o TCC.

Parece muita coisa, é verdade, mas foi pouco. Para mim, especificamente, a faculdade passou voando. Andar pelos corredores acanhados do prédio e conhecer pouca gente dá a noção exata de que eu estou ficando para trás. Por outro lado, é preciso reconhecer que uma nova fase da vida virá, e que para isso será preciso deixar essa para trás. Enfim. O espaço para expressar o fim é pequeno, mas a saudade já é grande.

Atleticanos à paulista

8 de novembro de 2008. Era fim de tarde de um sábado ensolarado, quando eu e o corintiano Diego nos encontramos no maravilhoso cruzamento da Ipiranga com a São João dispostos a conferir, perto dali, o encontro de torcedores do Atlético Paranaense que moram em São Paulo. Todos que passam pelo Despojo sabem (não sabem?) que eu torço pelo rubro-negro paranaense, embora comente pouco - afinal, nos últimos anos não tive muito o que comemorar. Porém, como sempre morei muito longe de Curitiba, me acostumei a ter notícias do clube pela internet e raramente ver os jogos pela TV.

Por isso, quando li no no Furacao.com que paulistanos estavam organizando uma embaixada, me animei e agendei minha ida ao centro de São Paulo. Nem mesmo uma puta dor de garganta que quase me impedia de falar evitou o passeio por aquela região da cidade que tanto gosto. Tudo pelo CAP. Pela área, procuramos pelo tal Novo Oba e o encontramos no meio da Antonio de Godoi, próximo à Rio Branco. Chegamos lá bastante cedo, por volta das 17 horas , uma hora e meia antes da bola rolar. Sentamos no balcão, já que o restante das mesas encavaladas no pequeno salão estavam lotadas.

Naquele momento, todos os olhares estavam voltados para a televisão de plasma de 32 polegadas, que certamente devia se sentir deslocada diante de tanta decadência. Nela, o Corinthians aplicava 2 a 0 no Avaí e se sagrava campeão da segunda divisão do Brasileirão. No balcão, um garçom me viu com a camisa rubro-negra e, num misto de curiosidade e hospitalidade, veio me perguntar: "Vocês que reservaram umas mesas para assistir o jogo?". "Não fui eu que liguei, mas é pra gente sim. É a torcida do Atlético Paranaense", respondi.

"Hm. E esse time aí tá no rebaixamento, né?", acrescentou ele. "Pois é, rapaz. Tá sim...", completei, com o sorriso amarelo. Como não tinha mais futebol a discutir, deixei o Diego conversando com o garçom sobre algo mais em alta: o Corinthians. Não muito tempo depois, porém, chegaram os primeiros companheiros atleticanos. Era Cláudio, que mais tarde viria a ser apelidado de Claudio Celso Petraglia por conta do seu cargo de presidente da reunião, que chegava acompanhado de outro colega rubro-negro cujo nome me foge no momento.

Assim, antes mesmo das 18h30, hora em que os onze do Atlético entrariam em campo na distante Florianópolis, a nação atleticana radicada em São Paulo já chegava no novo reduto. Uns se conheciam, outros não. Quase todos, que ao todo somaram mais de 30, portavam alguma coisa rubro-negra - por outro lado, nenhum objeto verde foi registrado. Apesar do pouco tempo para conversa, todo mundo logo se integrou e se voltou para o deprimido plasma de 32 polegadas. Em campo, Galatto; Zé Antônio, Rhodolfo, Antonio Carlos, Chico e Netinho; Valencia, Alan Bahia e Ferreira; Júlio César e Rafael Moura se posicionavam para enfrentar o Figueirense e afastar de vez o risco do rebaixamento.

A partir daí, todos os paulisto-atleticanos dividiram cervejas (eu, água sem gelo), broncas, uhs!, opiniões, gritos de guerra e comemorações de gols. Aliás, foram dois ao final: o primeiro marcado pelo volante-artilheiro Alan Bahia, aos 23 minutos do primeiro tempo; o segundo apenas aos 19 do segundo tempo, anotado pelo atacante e He-Man nas horas vagas, Rafael Moura, após váááárias chances perdidas - a maioria, por ele mesmo. No intervalo da partida, o sorteio de brindes patrocinados pelo clube ajudou a aliviar a tensão do segundo gol que não vinha. No apito final, aplausos ao time e votos de reunir novamente todo mundo para ver o Furacão. "Vamos tentar achar mais atleticanos perdidos por aí e tentar fechar um galpão maior", direcionou o embaixador. "Mas para um primeiro encontro até que fomos bem", completou. Um sucesso, eu diria. Um sucesso.

Cine Marabá - O cinema do coração de São Paulo

Dia 19, às 19 horas, na Cásper Líbero (Av. Paulista, 900 - 5º Andar).

Horóscopo

TOURO (21 abr. a 20 mai.): Há certas coisas que realmente chegam ao fim, mesmo que você tenha querido o contrário e torça para que algo mágico aconteça. Você pode ir até um ponto e tudo tem um tamanho, até seu poder de amar, de se doar e de ser invencível em sua determinação. Aceitar essa realidade é sábio de sua parte.

Eu nunca leio horóscopo. Nunca. E acho que não deveria ter lido o de sábado, na Folha.

Vem aí...


O cinema de cada um de nós

Quem é menino, sabe: coleciona-se de tudo. Bonecos dos Cavaleiros dos Zodíaco, times de futebol de botão, conjuntos de Lego, pipas, latas de refrigerante, enfim. Tudo. Eu, no entanto, tive poucas coleções na vida, mas uma era tão incomum quanto especial.

Era década de 90, talvez até 1995. Na época eu tinha uns 10 anos, se não me falha a memória (e ela costuma falhar, mas tudo bem). Meu pai, fisioterapeuta e leitor de jornal assíduo, assinava a Folha de S.Paulo, que eu, apesar de já saber ler, apenas folheava.

Na verdade, minha diversão com aquele papel que deixa a mão preta era um só: recortar as miniaturas de cartazes de filmes que vinham nas últimas páginas da Ilustrada. Aqueles cujo rodapé hospedava alguns pequenos retângulos que só cabiam o nome do cinema e, no máximo, uma aviso de Dolby Stereo.

Hoje, por coincidência, eu faço um livro justamente sobre o real conteúdo daqueles quadradinhos no rodapé, que me encantavam tanto quanto o próprio cartaz. Mal sabia eu que aquelas eram grandes salas de projeção da arte que imita a vida. E que nelas passaram, na tela ou não, a história de tantas pessoas.

Frame

Foi tudo muito rápido. Lugar escuro, talvez em uma barraca ou algum lugar coberto, pequeno e aconchegante. Não se sabe. Quando a cena começou, ele e ela já estavam juntos, pertos, com as pernas entrelaçadas. Frente a frente.

Um segundo depois já sentiam a respiração um do outro. E mesmo se diziam palavras, estas não foram registradas. Em seguida, a mão dele gruda nela, ela cola nele e a conversa acaba. "Quero você dentro de mim", diz ela. E sobem os créditos.

O diabo e o jornalista-fanfarrão

Nos dois últimos meses, estive frente a frente com dois ídolos meus, um do cinema e outro do jornalismo. Foram encontros casuais, distintos, mas não menos memoráveis. Vale conferir abaixo:

O primeiro encontro aconteceu em uma locadora, durante uma sessão de autógrafos do novo livro do crítico Rubens Ewald Filho. Fui até lá para pegar uns contatos necessários para o meu TCC e, quando menos esperava, lá estava ele: José Mojica Marins, cineasta popularmente conhecido como Zé do Caixão. Mal passou pela porta que dá acesso ao salão e ele já foi cercado. A maioria o cumprimentava pelo desempenho no Festival de Paulínia, onde seu novo filme, Encarnação do Demônio, faturou sete prêmios.

Aos poucos, fui me aproximando de Zé do Caixão para conversar sobre o Cine Marabá, afinal tinha a informação de que ele, por morar perto e por gostar, era um frequentador assíduo da sala, tendo ido até lá ver filmes (fitas, para ele) até pouco tempo antes do fechamento, no fim de 2007. O assédio era tanto que acabei falando apenas com o assessor de imprensa, que esclareceu que Mojica estava com a agenda cheia até o fim do ano por conta do novo filme, mas que poderia marcar um dia para conversar sobre o assunto.

Tudo bem, a situação ali estava complicada mesmo para eu falar com ele sobre um assunto nada a ver com a pauta do dia. Aceitei, anotei o e-mail da assessoria e continuei conversando com meus novos amigos nerds de cinema. Mojica, como bom cineasta de terror que é, soube sumir em um instante, deixando todo mundo com um gostinho de quero mais. Tempo depois, ressurgiu entre as prateleiras cheias de filmes, sozinho. E lá fui eu ao seu encontro.

Ao todo, conversamos durante uns cinco minutos. Apesar da imprecisão da declaração dele, que poderá ser lida no livro-reportagem sobre o Cine Marabá, que será "lançado" no fim de 2008, ele foi bastante simpático. Deu a mão para cumprimentar, e pude perceber as unhas um pouco acima do normal, mas muito abaixo da vista nas telonas. No fim, tiramos uma foto. O fotógrafo, que é presidente de um cineclube sobre 16mm, prometeu me enviar - só não lembro se passei meu e-mail a ele...

Já o segundo encontro aconteceu neste sábado, no Ibirapuera. Aproveitando o sábado de sol e o tédio de ficar em casa vendo Olimpíadas, decidi descer até o parque para conferir a abertura do Bourbon Jazz Fest, festival de jazz caríssimo que, por ironia, faria sua abertura gratuitamente em um lugar público (e cheios de fãs de jazz? posso garantir que não). Cheguei cedo, almocei no restaurante por quilo do parque e fui para o local do show poucos minutos antes do horário.

O espaço, que não era adaptado como o palco do Auditório Ibirapuera (este patrocinado pela Tim, concorrente da Vivo, aquela que bancou o festival), ainda estava vazio. Sentei-me, comecei a brincar com a câmera digital e, quando menos esperava, lá estava ele: Márcio Canuto, repórter popular por falar alto, gesticular como um italiano epilético e fazer reportagens engraçadinhas e/ou de cunho social para a Rede Globo.

Pouca gente sabe, mas Canuto sempre é citado por mim como um exemplo de jornalismo legal. Sim, eu tenho uma leve tendência para gostar de coisas bizarras. Independentemente disso, meu coração palpitou (ó, que poético!) com ele ali, tão perto. Na hora, pensei em levantar, ir até ele e parabenizá-lo pelo trabalho, completando com um "confesso que tenho vontade de seguir essa sua linha quando me formar em jornalismo... faço jornaliso, sabia? estou me formando! não tem nenhuma vaguinha de repórter assistente na equipe, aliás?".

Sonhos à parte, o máximo que consegui fazer foi tirar a câmera, disfarçar que focava no palco e tirar uma foto dele - acompanhado por um estranho x, que também parecia jornalista. Eu sei, você deve estar falando pra si mesmo: " Mas por que você não foi até lá, Julio?!". Simples. Na hora, eu não lembrei o nome dele! Nada, branco total. O máximo que consegui foi achar que era alguma coisa Caruso, mas logo lembrei que Caruso eram os irmãos-cartunistas. Mesmo assim, fiquei feliz em estar cara a cara com aquele que deve ser meu maior ídolo no jornalismo. Se fiquei um pouco frustrado por minha timidez impedir um contato, pelo menos tirei algumas fotos...

Márcio Canuto (à direita) curtindo um jazz e falando baixo

Para conferir mais fotos da tarde no Ibirapuera, do Marabá atualmente e ainda outras sortidas, clique aqui.

De Nova Iorque a Matupá

Embora não seja tão atualizado, o Despojo segue conquistando leitores pelo mundo - nem que eles venham por pesquisas idiotas no Google.



Aí, como eu não tenho nada pra fazer (e adoro esse recurso, o Feedjit, localizado na barra lateral), peguei umas imagens de visitantes de lugares estranhos, no mínimo.



Ou vai dizer que visitar o Despojo no meio do mato, na longínqua Matupá, no Mato Grosso, é normal? Isso sem contar quem acessa o site de Nova Iorque, nos Estados Unidos, ali pertinho da Broadway...



 
Matupá fica a 720km da capital Cuiabá e tem 14.243 habitantes, segundo o IBGE.
 
Nova Iorque, que fica a anos-luz de Matupá, tem 18.976.457 moradores.

Auto-análise de um blogueiro em crise

Ando meio sem tesão pra esse negócio aqui, sabe? Faz tempo que eu penso em atualizar, mas acabo vetando a idéia logo que ela surge na minha cabeça. Acho que não é falta de criatividade, afinal eu tenho uma idéia de blog novo por semana e estou preparando o segundo episódio do podcast sem nome - aguardem! Além disso, a falta de tempo e força pra superar a preguiça depois de um expediente e meio (revista e tcc) também tem contribuído com o descaso com este espaço. Enfim, é isso. Quem sabe quando o inverno (seco e quente) passar eu não deixo de hibernar?

Menino morde pitbull (ou: Um dia histórico para o jornalismo)

A manchete acima, caros amigos, é um marco na história do jornalismo brasileiro - quiçá mundial. Quem já fez ou faz jornalismo sabe que o exemplo usado para ensinar o que é notícia (ou não) é sempre esse: "Dizer que um cachorro mordeu um menino não é notícia, mas o contrário é", prega qualquer professor da área.

Pois bem. Nesta quarta-feira, o jornal O Estado de São Paulo concretizou o fato e estampou em suas páginas (virtuais, pelo menos) o feito histórico. Não acredita? Clica aqui ou veja a reprodução abaixo. Ah, e parabéns a repórter Solange Spigliatti. Eu ficaria feliz em escrever essa matéria tão importante para o mundo...


Menino morde pit bull após ser atacado em Sabará
Ele brincava no quintal da casa do tio quando o cão, que estava preso, avançou e mordeu seu braço

Um garoto de 11 anos mordeu um pit bull, após ser atacado pelo animal, na terça-feira, 22, em Sabará, na região metropolitana de Belo Horizonte, segundo informações do Corpo de Bombeiros. Ele brincava no quintal da casa do tio quando o cão, que estava preso a uma corrente, avançou e mordeu seu braço.

De acordo com depoimento do menino, ele apertou o pescoço do cachorro e deu a mordida para se defender. Um dos dentes do garoto chegou a quebrar e ficar preso ao animal, segundo os bombeiros. Testemunhas conseguiram separar o cão do menino, que foi levado para o Hospital João XXIII. Ele foi medicado e levou cerca de sete pontos no braço. Em seguida, foi liberado. O cachorro foi encaminhado ao Centro de Zoonoses da cidade, onde ficará sob observação.

Sssbrrrlllgbsss

A gestação já vem há algum tempo, e o nascimento aconteceu neste domingo. O filho é a minha primeira experiência com um podcast, formato moderno que sempre tive curiosidade e vontade de experimentar. O tema é, pelo menos até onde eu sei, inédito: a música ruim.

Neste primeiro número, eu explico porque o Kid Abelha é irritante para mim. Espero que vocês, caros visitantes do despojo, gostem deste capítulo-piloto como eu gostei - comentários, críticas e sugestões são bem-vindos nos comentários. E que me desculpem os fãs da banda da Paula Toller...


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Ah! Como vocês repararam, o podcast de música ruim ainda não tem nome! Para solucionar este problema, lanço o desafio aos visitantes. Deixe a criatividade fluir e escreva para nós. No segundo episódio do podcast, podemos ter um novo nome e um feliz vencedor, que será citado no ar.

Participe!

Eu sei que estou em falta com este espaço, mas tudo bem. Pra piorar, vou usar um post inteiro para uma pesquisa simples, que pode ser respondida pelos comentários. A ajuda de todos (se estes todos já não desistiram de mim) será muito importante.

Lá vai ela (só não vale me perguntar o por quê disto, ok?)

"Que tipo de música você considera ruim? Por que?"

Liberdade

Eu não saberia escrever sobre isso, mas ela sabe. Por isso, reproduzo-a aqui. Afinal, é sempre bom lembrar que tem gente boa - e que escreve bem - no mundo. (aliás, o Querido Leitor, da multiuso Rosana Hermann, vale a visita sempre)

O triunfo da liberdade, da vida, do amor, é um alento para todos nós.
Esperamos com paixão o encontro de Ingrid Betancourt com seus filhos.
Num mundo onde tantos malditos se dão bem, onde os filhos da puta conseguem assumir o poder para exercer o mal, onde tantos idiotas, cretinos e ignorantes seguem esses mesmos filhos da puta, é um alento ver uma pessoa de bem sair-se vitoriosa.
Não quero parecer ingênua e maniqueísta mas há dias em que temos a necessidade de vomitar a verdade tal qual ela nos parece.

Tem muita gente ruim, verdadeiras encarnações do demônio, pessoas sem compaixão, patologicamente comprometidas pela ganância incontrolável, pela sede de poder, que só fazem crescer na vida. Em geral, às custas da imbecilidade dos crédulos. O rebanho de trouxas não para de crescer. Cada vez é mais fácil enganar a todos. Cada vez mais pessoas resolvem vender a alma por algumas moedas.

Por isso é tão importante cultuar a ética, ter olhos para discernir o justo, ter esperança.
Ingrid nunca perdeu a esperança.
Ingrid sobreviveu a tudo.
Ingrid venceu e terá de volta sua vida, seu marido, seus filhos, sua mãe, seu mundo.

Ingrid é hoje, para todos nós, o símbolo da resistência consciente e da fé genuina, aquela que nos faz olhar para o céu e agradecer pela vida que temos.

Quando Ingrid Betancourt abraçar seus filhos hoje, todos nós estaremos abraçando o amor que temos pela humanidade.

7list: CDs que eu quero baixar

Depois do sucesso estrondoso da primeira edição da seção 7list (menos, Julio...), repito a dose listando os sete CDs que eu quero baixar, mas não consigo, seja por falta de tempo ou por puro esquecimento mesmo. Ah! Sim, eu faço downloads de CDs completos e nem me lembro mais a última vez que saí de uma loja carregando uma caixinha de plástico com um disquinho dentro. Mas tudo bem, Padre Marcelo Rossi está do meu lado.

1. Fernanda Takai - Onde brilhem os olhos meus

O primeiro trabalho solo da vocalista do Pato Fu é namorado por mim desde o lançamento, no fim do ano passado. Imagino que deve ser um trabalho sensível e doce, tal qual a voz dela. Só por ser uma interpretação das músicas de Nara Leão já merecia a minha (e a sua) consideração. A conferir.

2. Maria Rita - Samba meu

Também de 2007, o CD de samba de Maria Rita é outro que desperta a minha curiosidade. Ele me lembra um outro que eu comprei faz tempo: Universo ao meu Redor, da Marisa Monte. Nos dois casos, eu não gosto do estilo original das cantoras, mas decidi dar uma chance a elas no samba. A Marisa se deu bem, vamos ver a Maria...

3. Weezer - Weezer (The Red Album)

Eu adoro Weezer, mas nunca comprei um CD dos caras. Em todo caso, não pretendo comprar este também, mas sim baixar para ver como estão os ex-nerds, agora quarentões. Dizem que eles continuam fazendo o mesmo tipo de música, o que eu não vejo como um problema. Se depender do primeiro clipe do álbum (Porks and Beans), em que eles satirizam os vídeos virais do YouTube, acho que vale a pena o download.

4. Coldplay - Viva la Vida or death and all his friends

Para mim, Coldplay sempre foi a fórmula perfeita de música suave e grandiosa ao mesmo tempo, perfeita para momentos romantiquinhos ou melancólicos/chuvosos. Só que muita gente critica o fato deles serem tão previsíveis, o que eu concordo em partes. Só não acho que, por enquanto, isso seja um problema. Enquanto não enjoar, estarei à espera dos vocais em falsete, dos pianos bonitinhos e do barulho organizado da banda de Chris Martin.

5. Titãs e Paralamas - Juntos e Ao Vivo

As duas bandas fizeram parte da minha adolescência "música brasileira" e até hoje me animam quando eu as ouço. Os CDs acústicos lançados pelas jurássicas bandas eram meus desejos de downloads, pelo menos até o lançamento deste novo disco, que parece ser interessante justamente por agregar num mesmo lugar as músicas antigas dos dois. Está na lista para baixar desde já.

6. The Kooks - Konk

Não sei bem como conheci o Kooks, mas não faz muito tempo. Desde então, eu penso em baixar o CD deles, que descobri por meio da pesquisa para este post que se chama Konk. Bom, se você ainda não conhece e gosta de bandinhas novas com pegada rápida e ritmo meio dançante, vale a pena procurar o Kooks. Não vai querer que eu coloque aqui o link do myspace, né? Se vira, rapá!

7. The Magic Numbers - Those the Brokes

Os gordinhos do Magic Numbers sempre prendem a minha atenção quando (raramente) são tocados na rádio. E eu sempre, desde que eles apareceram em 2005, penso em baixar o CD deles. O primeiro disco, que tem o nome da banda, traz os melhores sucessos. O segundo, o Those the Brokes, já saiu faz um tempo e também deve ser bacana. Vou baixar, juro. Um dia, quem sabe...

Happy Day

Fazia tempo que eu não tinha um dia tão completamente feliz como hoje. Acordei cedo e animado (o que raramente acontece), tomei café da manhã do jeito que eu gosto, fui pra faculdade sem achar ruim ter de assistir aula de jornalismo econômico, almocei bem aquela comidinha caseira, fui andando ao som de Toranja pro trabalho, praticamente finalizei a matéria da próxima Mac+, voltei pra casa ao som de Rolling Stones, comi esfirra aberta pelo caminho, tomei um banho relaxante, assisti o impagável 15 minutos da MTV, toquei violão como não fazia há tempos e agora estou relatando meu dia, coisa que eu sempre condenei em blogs.

Pois bem. Falei tudo isso para concluir uma coisa que eu vinha reparando já há algum tempo: eu não consigo escrever nada tão criativo e poético que caiba neste modesto blog de ficção e realidade se não estiver num dia cinza, me sentindo meio triste ou melancólico. O motivo para isso talvez seja o fato de eu querer fazer coisas mais legais, úteis e divertidas quando me sinto bem. Em suma, é isso que dá tentar escrever algo diferente quando se está alegre. Vira um mero relato cotidiano do nada.

Interpol

Como vocês vêem ao lado, o governo suíço esteve visitando o Despojo. Chegaram pelo Google, disfarçando que procuravam algum Xico, provavelmente um que fala a língua que mais cresce no mundo (o portunhol, se você ainda não sacou, hermano). Esses dias vi no Estadão que o mentor de 11 de setembro esteve em Foz do Iguaçu anos antes do ataque às torres gêmeas de Nova Iorque, sem levantar suspeitas. Talvez eles achem que eu estou confabulando para atacar a Suíça ou então suspeitam que eu tenha uma conta ilegal na terra do chocolate. Estranho, muito estranho...

Meu caro amigo

Na melhor letra de samba de todos os tempos (na minha opinião), Chico Buarque conseguiu mandar notícias a um caro amigo por uma fita, quando apareceu um portador. Primeiro, lembrou que o cotidiano na terra continuava o mesmo, com futebol, samba, choro e roquenról, isso sem esquecer que uns dias chovia, outros fazia sol. Só depois é que vinha a crítica e o protesto à situação política do país, que enfrentava um dos mais duros períodos de sua história.

Nesta terça-feira, uma ligação me chamou a atenção. Era de um caro amigo, mais precisamente de um amigo da infância e da adolescência bem vivida em Promissão, com quem eu tenho contato muito esporadicamente. Recentemente ele esteve em São Paulo para uma entrevista de emprego e almoçou comigo, mas mesmo assim as notícias são sempre raras.

Nesta terça-feira, porém, a voz familiar me contou uma boa notícia: ele foi aprovado no tal emprego (a ex-estatal Vale, antiga Vale do Rio Doce) e vai se mudar para Vitória, no Espírito Santo. A gente começou na pré-escola ao mesmo tempo, passou toda a vida estudantil juntos, começou a aprender violão praticamente na mesma época (embora ele seja um talento e eu não) e viveu outras inúmeras situações juntos.

Estamos separados há mais de quatro anos, com poucas notícias e informações, mas a amizade permanece praticamente intacta. Seja nas aparições inesperadas na casa do outro, ainda em Promissão, seja nos encontros improváveis na metrópole. Torço sinceramente pela felicidade deste caro amigo, assim como eu sei que ele torce por mim. E pelo visto, as coisas estão acontecendo... À você, caro amigo que pouco aparece por este espaço virtual, desejo toda a sorte do mundo. E a todo o pessoal, adeus.

Ossos do ofício

Eu me drogo para escrever. Sim, às vezes eu vou até a cozinha, pego o pó escondido no armário e não sossego enquanto não estiver pronto. Outras vezes eu nem chego em casa e recorro a esta droga em qualquer boteco que tenha o bagulho lá no fundo.

Não é fácil, sabe? Nem sempre a procedência do material é boa, ainda mais porque é complicado distinguir se a origem é a Colômbia ou o interior de São Paulo mesmo. Tudo bem, não tem problema. Eu não vou deixar de consumir por causa disso.

Mas ai de quem não colocar o café na minha xícara personalizada quando eu for escrever... Eu fico puto.

Química

As sensíveis células dos lábios se preparam para receber a água necessária para lubrificação, da própria língua, que num gesto reflexo rápido, deixa a boca para tocar a parte externa. Os olhos se adocicam em segundos, a pupila se dilata, a sombrancelha descansa e os cílios abrem e fecham lentamente, deixando a aparência fechada para se derreter nos olhos dos outros.

O coracão, inegavelmente, dispara e palpita sem controle, bombeando o sangue através dos vasos, aumentando a temperatura do corpo. Os músculos contraem e relaxam (dependendo da parte do corpo, claro) e também têm responsabilidade no momento, que se dependessem da vontade de ambos durariam horas.

O primeiro toque é, quase sempre, a mão. Os cinco dedos de cada uma vai se entrelaçando, ao mesmo tempo em que o respira-inspira de cada um fica mais íntimo ao outro. Agora já não existe distância geográfica e toda a química do corpo se reúne orquestradamente para se entrar ao contato. Os olhos fecham, a pele cola, as mãos passeiam, as bocas unem. E o que era dois vira um.

Por Julio Simões, em 29 de maio de 2008.

Elevador

Ela tinha o andar elegante de uma velha modelo, embora nunca tenha sido nem velha, nem modelo. O que dava charme à moça de pouco mais de 20 anos, porém, não era apenas o andar, o florido vestido, a bolsa estendida no braço esquerdo e a sandália que exibia a delicadeza dos pés. Eram os longos fios de cabelos ruivos.

Não havia como negar que o fato dela ter o cabelo de cor entre o vermelho fogo e o laranja fruta era o que chamava a atenção. O jeito de olhar era outro destaque. Nem tão direito, nem tão disperso. Sexy, quando possível. E a boca? o que dizer da boca? Os lábios dariam um capitulo à parte caso ela fosse um livro. Se fosse, seria um daqueles romances açucarados, com certeza.

Piiiiiiiii. O som do elevador alcançando o andar o fez parar de descrever mentalmente aquela desconhecida. Antes de sair, ela ainda olhou para trás, como quem tivesse ouvindo toda aquela ode e agora agradecia. Desceu ela, ficou ele. E Ricardo pensou como era ruim ser apenas um sonhador...

Por Julio Simões, em 29 de maio de 2008.

Deja-vù

Era só o que faltava: minha falta de inspiração se aliou ao azar. Saí do banho, local onde eu tenho as melhores idéias do dia, já determinado a parar com essa enrolação de textos que virou o despojo. Tinha a idéia na cabeça, que se equilibrava bem entre o saudosismo e a fase atual. Pior: tinha até título! ("Às origens", diga-se de passagem).

A analogia era excelente, mas algo me dizia que eu já tinha escrito isso em algum lugar. Aí veio a apuração. Bastou digitar as palavras-chave no google e... bingo! Lá estava o texto, sensível e completo, como eu gostaria de escrever. Sem tirar nem por uma vírgula - ok, eu mudaria o final agora, mas enfim.

Aí pensei: se eu já escrevi, por que não reeditá-lo aqui? Pois então fique à vontade para lê-lo enquanto eu tiro um cochilo das letras...

Eu, cá com meus botões

Vazio

Eu ia escrever um conto triste, como são quase todos os meus.

Até comecei a idéia, que parecia boa, mas parei logo no primeiro parágrafo e não consigo mais continuar. Me sinto meio vazio. Não entendo essa minha falta de força para a criação.

Acho que vou dormir. Boa noite.

Desolè

Já estava com 32 anos e nenhum rumo na vida. Naquele dia, especificamente, sentou-se no sofá já carcomido e empoeirado para ler o jornal da semana anterior. Não tinha forças sequer para buscar uma xícara de café frio na cozinha, onde os pratos, copos e panelas já disputavam espaço a tapa. Não tinha nem vontade nem de ir até o banheiro de azulejos azuis e encanamento enferrujado. O único caminho que fazia era da poltrona ao colchão, estendido no centro da sala, em meio a jornais velhos e contas a pagar. Era fato: já estava com 32 anos e nenhum rumo na vida.

Por Julio Simões, em 13 de maio de 2008.

Despedida

A decisão não foi fácil, mas foi tomada. Depois de dois anos, quatro meses e nove dias, estou deixando a GE.Net para me dedicar ao TCC e me arriscar em uma nova área (revista de tecnologia). Durante este tempo todo, tive a oportunidade de conviver e aprender com profissionais competentes e pessoas maravilhosas, que fazem deste 12º andar da Fundação Cásper Líbero um dos melhores ambientes de trabalho que eu devo ter freqüentado. Pretendo não me estender muito nessa carta, mas gostaria de agradecer a todos que me ajudaram a crescer como jornalista e pessoa.

Nominalmente (e assumindo o risco de esquecer alguém, a quem já peço desculpas), agradeço ao editor Erick, aos sub-editores Beggo, André, Lau, Nara, Raul, Pierre e Cezar, aos repórteres Marta, Carol, Amaral, Celinho e Fini, aos amigos estagiários Mané, Pedro, William, Felipe, Eduardo, Danilo, Gustavo, Rafael, Henrique, Amanda e a tantos outros que já saíram, além de Toninho, Othon, Willians e Erasmo, assim como todo o pessoal da arte, da foto, do design e do transporte. A todos estes, meu muito obrigado.

Saibam que eu vou sentir muita falta das brincadeiras, das discussões de futebol, das propagandas decoradas da rádio Globo, das pizzas de quarta-feira, dos momentos tensos de fim de rodada, do bordão ‘boa, Juninho’, dos novos métodos motivacionais do Raul, das provocações de folga com o Fini, das imitações do Othon, das regras de jornalismo revolucionárias e das provocações injustas do William, das tentativas frustradas do Mane em me reconciliar com o ‘desafeto’ Shrek, enfim. Estas são só algumas das coisas boas que eu vou levar daqui.

Alguns eu consegui cumprimentar pessoalmente antes ou durante este domingo, mas a maioria não. Mesmo assim, gostaria de abraçá-los por este e-mail. Torço por todo mundo que faz deste lugar o ‘melhor site de esportes do Brasil’, como sempre nos lembra o logo da GE. Desejo um bom trabalho daqui para frente e espero que esta carta não seja um adeus definitivo, mas sim um até logo. Prometo visita-los sempre que possível. E, mais uma vez, obrigado por tudo.

Julio Henrique Silvestre Simões

info: o e-mail foi enviado aos meus agora ex-colegas de trabalho, aos quais serei sempre grato.

Saldo

Muita gente já sabe que eu não gosto muito de fazer aniversário. Não pelo motivo tosco da Glória Maria, que esconde até de si mesmo a idade e usa mil creminhos para evitar qualquer princípio de ruga, mas pelo simples fato de que eu não gosto de ser o centro das atenções.

E o dia do seu aniversário é o momento em que a Terra para de girar em torno do sol e começa a rodar ao seu redor. Mesmo assim, vale registrar alguns acontecimentos curiosos - ou não - que tornaram o meu dia menos comum e mais, hmm, aniversarioso.

- 37 scraps de aniversário, sendo um no dia 6 e outro no dia 8, número que me fez chegar, assim como o Romário, ao número 1000 na carreira (parabéns ao Zé, meu primo, que provavelmente sem querer registrou o milésimo). ah, detalhe: curioso como tem gente (2) que não tem certeza do parabéns e reescreveram seus recados comemorativos...

- 4 torpedos sms de aniversário, o que prova que a tecnologia ganha espaço até na hora de parabenizar. O engraçado é que até a minha mãe aderiu a este formato para desejar saúde, felicidade e realizações a mim. Ela ligou depois, à noite, mas o primeiro sinal do dia foi mesmo via celular.

- 12 ligações de aniversário é o número que eu conclui tentando lembrar quantos me ligaram para ouvir minha bela voz agradecendo a tudo que era falado do outro lado. O meio mais tradicional é o mais utilizado por pessoas próximas que estão longe, caso do meu pai, minha mãe, meus avós e velhos amigos de outrora.

- 19 abraços de aniversário foram recebidos, apesar dos números serem tão imprecisos quanto os de ligações recebidas. Neste caso, não importa quem era. Só o fato de estar disposto a me parabenizar já vale. Como recompensa, todos receberam uma cara de constrangido/envergonhado.

- 5 comentários de aniversário foram recebidos neste despojo, muito menos do que os 11 do ano passado, quando comemorei com o post em que o Jo Soares me entrevistava. Até hoje este texto é lembrado e mantém o recorde de comentários em um só post. Mas desta vez eu entendo a baixa audiência, afinal publiquei algo mais subjetivo e menos criativo.

Enfim. Estes são alguns números do meu dia 7 de maio. A frieza do número pouco me importa, mas eu fico feliz e agradeço à todos que lembraram. Não teve bolo (preferi um alfajor Havanna), nem parabéns (ainda bem!), mas foi um dos aniversários mais ideais que eu já passei até aqui. E que venha o ano que vem, então!

Tempero

Eu tive medo quando fui andar de cavalo pela primeira vez, e tremi muito quando ele inventou de dar uns trotes. O mesmo medo de quando eu vou, nem que seja para acompanhar, a um parque de diversões.

Eu tive medo em mudar de escola pela primeira vez, da mesma forma quando encarei meu primeiro dia na faculdade. Certamente o mesmo medo que tive quando sai de casa para fazer cursinho em outra cidade.

Eu tive medo quando precisei bater um pênalti decisivo na final de um torneio de futsal, exatamente o mesmo sentimento frio que me corrompeu por dentro cada vez que eu precisei encarar uma piscina para competir.

Eu tive medo quando avistei um cachorro e conclui que ele iria correr atrás de mim. Esse medo ainda reaparece toda vez que um cão, mesmo que apontado pelo dono como bonzinho, resolve vir me conhecer.

Eu tive medo quando fui escolhido para ser orador da minha turma do prézinho. Apesar de bem alfabetizado na época, o calafrio de falar em público e em um microfone é o mesmo de uma entrevista de emprego.

Eu tive medo de pedir demissão do meu primeiro emprego, mesmo após três meses longos e desgastantes. A mesma coisa aconteceu esta semana, quando precisei comunicar minha saída ao chefe.

Estas são apenas algumas das inúmeras situações que me dão medo - as que eu me lembrei. Não foram as primeiras, nem as últimas. Todas elas, mínimas ou máximas, tem origem na mudança, o verdadeiro motivo da aflição.

Hoje, 7 de maio de 2008, completo 22 anos de vida. Toda vez em que mais um ano termina para mim, eu tento olhar para trás e ver o que eu fiz, o que eu faço, o que farei. Pouca coisa muda, mas eu sempre me satisfaço.

Eu tenho medo de mudança. Fato. Só que desta vez, mais do que nunca, o dia em que completo meu 22º ano de vida, cai exatamente no meio de um período em que eu tenho tomado decisões e definido rumos para o futuro.

Vou deixar meu emprego de quase dois anos e meio. Vou trocar de área no jornalismo. Vou mudar minha rotina. Vou mudar boa parte das pessoas com quem eu convivo diariamente. Vou encarar sozinho a construção de um livro.

Eu tenho medo. O mesmo de quando andei a cavalo, fui a um parque, estreei na escola e na faculdade, saí de casa, bati um pênalti, nadei, corri de um cão, fui orador e avaliado para um emprego, pedi demissão. Talvez seja essa a graça da vida.

Falso filme

Antes de mais nada, caro leitor, faça comigo um esforço de imaginação. Faz de conta que você é um diretor famoso, tem nome e história no cinema nacional, vem daquele tempo em que as produções eram realmente toscas e, de um tempo para cá, passou a fazer filmes carregado de significado e cultuados por poucos. Um certo dia, pode-se dizer, você tem a idéia de fazer um filme tosco, ao molde das comédias antigas italianas e com pitadas das velhas (porno)chanchadas - que você, caro diretor, tanto conhece. Pois bem. Aí, para fazer um filme B que se preze, você decide convocar um elenco totalmente B.

E não precisa ser criativo. Junte um cantor romântico em baixa (Mauricio Mattar), uma ex-reboladora de programa de auditório (Suzana "Tiazinha" Alves), uma personagem bonachona de programa de fofocas (Mamma Bruschetta a.k.a Luiz Henrique Pinto), um transformista e projeto de político (Léo Áquila), um galãzinho de novela das sete (Cauã Reymond) e ainda, como protagonista, a filha do reitor de uma universidade pública do DF acusado de abusos com dinheiro público (Rosane Mulholland). Ah, chame também alguém do perfil para a trilha sonora - no caso Paulo Ricardo, aquele do olhar 43.

Pronto. Com tanto talento reunido, mãos à obra. Capriche bem nas cenas, tornando-as longas e repetitivas, mas não esqueça do humor - brega, preferencialmente - para deixar o filme suportável. Invista também em sexo, afinal estamos falando de um filme nacional. Coloque gente pelada, de preferência nas mesmas cenas engraçadinhas e toscas. E a história do filme? Pra quê, meu Deus! Tudo isso já não estã bom? E outra: depois de tanta cena musical sem-noção você vai ver que filme já vai parecer ter quatro horas, e aí já seria tarde demais pra pensar em trama.

Enfim. Exageiro e preconceito meu à parte, o novo filme de Carlos Reichenbach, Falsa Loura, é basicamente isso. Você demora para entender porque as coisas acontecem no filme, se cansa com as longuíssimas cenas musicais pouco úteis que são recheadas pelo melhor da inédita música brega e ainda sai do cinema com a sensação de que a intenção era zombar com a sua cara e/ou tentar criar um movimento neo-boca do lixo. Porém (porque tudo na vida tem um porém), o filme tem uma qualidade: o elenco. Afinal, como não rir cada vez que um dos atores destacados acima entra em cena? Só isso já vale o ingresso.

Marabá: Primeiros problemas

Depois de ter a idéia mais consistente até aqui para o TCC [leia aqui o primeiro capítulo], passamos a outra ação tão importante quanto a definição do tema: a escolha do professor-orientador do projeto experimental. Neste ponto, Maurício e eu concordamos em convidar Luis Mauro Sá Martino para a função.

E o então futuro orientador foi colocado à prova logo no primeiro encontro oficial. Como tínhamos outra idéia concorrente (livro-reportagem sobre o Retiro dos Artistas), resolvemos pedir a opinião do professor, que precisou de apenas alguns minutos para decretar a "vitória" da proposta do Cine Marabá.

Assim, com orientação definida e proposta ganhando força, passamos a procurar informações sobre a sala de cinema para comprovar - ou não - a viabilidade do livro-reportagem. Porém, foi quando as pesquisas começavam a consolidar a idéia e a minha empolgação aumentava, que os primeiros problemas vieram à tona.

O baque inicial se deu com a repentina viagem do orientador para a Inglaterra, onde passaria um ano realizando um pós-doutorado. À princípio a ida do professor ao exterior era apenas um boato ouvido nos corredores do prédio 900 da Paulista. No entanto, a informação acabou sendo confirmada tempo depois.

Eram férias de fim de ano, e o "sumiço" do orientador acabou provocando outra decisão que mudaria os rumos do projeto então embrionário. O companheiro Mauricio, profundo conhecedor do jornalismo econômico, acabou decidindo deixar o barco para integrar um TCC sobre etanol. Estava instalada a crise.

(continua no próximo capítulo)

A velhinha, o moço e o Gato Preto

A história não aconteceu no curto espaço entre o 12° andar do meu prédio e a rua, mas foi como se fosse. Na verdade, o diálogo se passou no supermercado que freqüento, na rua Pamplona, quase na esquina com a alameda Santos. Enfim.

Sábado de sol em São Paulo. Resolvo ir de bermuda e chinelo até o mercado comprar coisas para um almoço digno de um dia ensolarado e feliz. Ando pelas prateleiras em busca de comida, compro nhoque congelado e acessórios para exercer meu lado chef e, como quase sempre, decido dar uma passadinha pela seção de vinhos.

Eis que, enquanto olhava as opções mais "em conta" do charmoso espaço vinícola do mercado, sou abordado por uma velhinha, que tinha em mãos um iogurte Vigor.

- Moço, você enxerga bem letras pequenas?
- Sim, claro.
- Então veja aqui pra mim a validade, por favor.
- Hm, 30 de maio de 2008. Pouco mais de um mês, senhora.
- Ah, obrigada...

E seguiu empurrando seu carrinho de compras pela congelante seção de frios. Voltei, então, a minha análise (de preços, diga-se de passagem) dos vinhos à disposição. Quando estava prestes a pegar um argentino de Mendoza, que saia por amáveis R$ 9, 90, ouvi a voz fina, rouca e baixinha de novo.

- Olha, tem um vinho chamado Gato Preto que é ótimo, viu.
- Oi? Ahn, Gato Preto?
- É, sim.
- Parece que aqui não tem...
- Num sei. Mas ali na Brigadeiro Luiz Antônio eu sei que tem.
- Ali no Extra da Brigadeiro?
- Não, não. Numa adega, que fica na Brigadeiro, ali entre a Itu e a Jaú. É boa, dá pra ir de carro, tem estacionamento...
- Ah, sim. Vou procurar.

E quando olhei para o lado, a velhinha já estava no fim do corredor, empurrando seu carrinho de compras. Arrisquei um "obrigado, viu" baixinho, que obviamente não foi ouvido, e segui analisando economicamente os vinhos. Eis que, correndo os olhos pelas prateleiras, avisto um Gato Preto, em letras quase garrafais - com o perdão do trocadilho, meus caros.

Aí não teve como evitar. Peguei o vinho, que é chileno e, no caso, tinto tipo Carmenère. Analisei o preço: R$20. Voltei a olhar a prateleira, o vinho, a prateleira, o vinho. Mais pra cima, enxerguei um Cabernet Sauvignon. Pronto, pus na cestinha e saí pensando na velhinha...

Serviço:
Pra quem se interessar pela dica da velhinha, o Pão de Açucar oferece o Gato Preto. Dá pra comprar pela internet bem aqui.

André e o tempo

André sempre foi bom em criar boas histórias. Fantásticas ou não, sempre teve o dom do "começo, meio e fim".

Quando pequeno, a mãe costumava dizer que elas eram mentiras - a não ser as que envolviam dragões e princesas, que eram óbvias.

Quando moço, as moças costumavam dizer que elas eram falsidade - as que envolvessem amor, talvez fossem mesmo.

Quando adulto, os amigos do trabalho costumavam dizer que eram uma forma de persuasão - ao menos algumas serviam para convercer terceiros.

Um dia, porém, André parou de criar boas histórias. As poucas que criava eram ruins - "uma bosta", definia - e elas ainda o fizeram sentir uma coisa nova.

Barriga? Não, preguiça mesmo. Desde então, é raro quando ele profere uma história. E quando acontece, quase sempre vira bolinha de papel.

Marabá: O início

O natural é que as coisas comecem do início. E é por isso que desde já resolvi contar, por meio do despojo, a minha saga na apuração do projeto experimental de conclusão de curso, também chamado pela temida sigla TCC. No meu caso, um livro-reportagem sobre as histórias do Cine Marabá, sala de cinema inaugurada na década de 40 que fica no centro de São Paulo, quase no famoso cruzamento entre a Ipiranga e a São João.

E como falamos em começo, vale começar a contar esta história do ponto em que surgiu a iniciativa. Em 2007, eu e Mauricio Martins, com quem dividia a responsabilidade da missão, tivemos alguns insights sobre o projeto experimental. Que tal um livro sobre o cotidiano dos correspondentes brasileiros no exterior? E um documentário sobre a Transiberiana? Ah, e um livro sobre a evolução da produção de etanol no Brasil? Enfim. Idéias não faltaram, embora nenhuma dessas tenha sido escolhida, por uma série de fatores que viriam a seguir.

Outubro de 2007. Se minha memória não falha, foi neste mês em que um encontro definitivo aconteceu. Tinha acabado de ler um daqueles jornais descartáveis grátis e pensado em uma pauta interessante para uma revista de cultura, talvez. O que havia me chamado a atenção era o fato do centro de São Paulo, antes famoso por abrigar boa parte da vida cultural da metrópole, tinha apenas um cinema representado no guia de programação dos jornais.

Sabe aquela seção do jornal que você recorre para saber o melhor horário e local para pegar aquele cineminha? Então. Já reparou que ele é dividido em algo próximo a Bairros, Shoppings e Centro/Jardins. Esta última classificação foi o motivo que me fez pensar. Nela, só havia as salas de cinema da região da av. Paulista e arredores, além do velho Cine Marabá, o "último dos moicanos" do Centrão. O que, no mínimo, seria tema para uma reportagem.

Naquele mesmo dia, o encontro que definiu tudo se deu nos corredores da Faculdade Cásper Líbero. Depois de explicar a idéia da pauta e lamentar que "infelizmente eu não trabalho em uma revista para propor isso" para a companheira Juliene, que na época era cotada para integrar o grupo, ouvi a grande questão. "Por que você não faz o TCC sobre isso?", disse ela, quase que concluindo que 2 + 2 são 4. Bingo! Desde então, não tive mais dúvidas de que seria isso. Só não sabia dos percalços que enfrentaria ainda no começo...

(continua no próximo capítulo)

Curtas

* Que Vampeta que nada! A culpa do rebaixamento do Juventus, que aconteceu recentemente, foi minha. Havia prometido comparecer a Rua Javari para emprestar o meu pé quente ao time da Mooca, mas compromissos profissionais me impediram. Resultado? Moleque Travesso na Série A-2 do Campeonato Paulista de 2009. Infelizmente.

* A enquete sobre o post 7list ainda não acabou, mas surpreendemente - pelo menos para mim - o Ira! vence. Com três votos apenas, a ex-banda de Nasi e Scandurra supera os ingleses desconhecidos do The Wombats, que tem dois votos. Na seqüência, aparecem os veteranos do Cake e a novata Mallu Magalhães, ambos com um. Ao todo, apenas sete votos computados. Eu esperava mais, confesso. Mas ainda há tempo, basta votar na barra lateral à direita.

* Estive em Promissão neste fim de semana e coloquei frente a frente minha mãe e o texto "O engradado e a fila", que ainda não teve a nota divulgada. Antes, ainda na mesa do cafe da tarde, contei a ela que tinha escrito um texto para a faculdade abordando o início da vida escolar. Ela riu antes mesmo de eu citar qual era a situação escolhida. Aliás, ficou rindo antes, durante e depois de eu ler o texto para ela. Primeiro lembrando da situação, depois por eu ter confundido garrafa com engradado, que na verdade é onde são guardadas as garrafas! Enfim, todo mundo me entendeu, mãe!

* Só para ficar o gostinho, estou preparando dois posts para os próximos dias. Um conta o começo da minha aventura no projeto experimental de conclusão de curso. O outro é a tentativa de reconstruir o belo "Alice no País das Maravilhas", meu último livro lido, de uma forma mais boba e, digamos, gastronômica. Como diz o tio Silvio Santos, aguardemmmm!

Sunday morning

6h20. Ela levanta na ponta dos pés, sem pudor de desfilar pelo quarto ainda toda nua. Contorna a cama, calça os chinelos uns quatro números maior e segue para o banheiro. Ela é simplesmente a melhor visão para um domingo de manhã. As curvas do corpo, o balançar dos quadris, o cabelo desarrumado sobre o resto. Tudo nela parece ter um único propósito: encantar.

6h40. Ela sai do banheiro, veste apenas o roupão. Parada, me observa na cama. Sinto uma respiração relaxada, beirando a felicidade plena.

6h50. Ela volta ao quarto - havia saído - e vem até o canto da cama. As mãos, macias e frescas, tocam as minhas costas. Eu arrepio, ela percebe, eu finjo dormir.

7h20. Ela volta a sair do quarto, desta vez em disparada. O roupão que a cobria voa, o que me lembra uma fada voando pelo céu azul.

7h30. A surpresa: linda, ela volta ao quarto com uma bandeja, com café e torradas - afinal, era só o que havia nos armários. Esfrego os olhos fingindo não acreditar. O sorriso dela reluz no quarto todo.

7h50. Já deitada ao meu lado, ela se assusta e diz a frase mais temida: "preciso ir". Silêncio.

8h10. Com passos de dança quase ensaiados, ela se troca, pega as chaves e a bolsa. Um beijo com gosto de pasta de dente e a certeza que a felicidade existe, mas que infelizmente não é para sempre.

Por Julio Simões, em 26 de fevereiro de 2008.

O engradado e a fila

Sempre quando relembra esta história, minha mãe abre um sorriso e conclui para quem ouve que eu sempre fui assim, certinho demais. A cena, que ela adora relembrar em datas comemorativas e outras confraternizações em família, aconteceu provavelmente em 1993, quando eu tinha apenas sete anos de idade. Era a primeira vez que encarava um colégio grande, com pessoas estudando da primeira série do primário até o terceiro colegial. Tanta gente que, nos intervalos, era quase impossível fugir de fila em bebedouros, banheiros, merenda e cantina.

Depois de alguns dias freqüentando uma das salas da primeira série do ensino fundamental, porém, minha mãe conta que eu comecei a reclamar da cantina. Insistia que não queria comer mais lá, mas não justificava. Porém, com aquele jeitinho só as mães têm com os filhos, ela conseguiu descobrir o motivo da minha insatisfação: as filas. "Mas o que tem as filas, filho?", provavelmente indagou minha mãe. "Demoram muito, mãe", certamente respondi.

Porém, a desculpa não satisfez minha mãe, que continuou desconfiada com o que estava me fazendo desistir de comprar um salgado e um refrigerante na cantina da nova escola. Passaram-se alguns dias até que ela resolveu novamente perguntar sobre meu problema com a lanchonete do colégio. "Filho, por que você não gosta da fila da cantina? Tem alguém te perturbando?", arriscou. "Não, mãe", respondi a seco, como toda criança pequena que não sabe explicar direito qual o problema.

Mas minha mãe não desistiu. "Filho, me conta como você faz no recreio. Você sai da sala e vai direto para a cantina?", perguntou ela, tentando outra forma de abordagem. "Isso. Saio da sala, vou para a fila da cantina e compro um enroladinho e uma Coca", respondi, dando maiores detalhes daquilo que, na época, era praticamente uma aventura para mim. "E só?", reforçou. "Depois eu entro na fila de novo para devolver a garrafa da Coca, mãe. Só que demora muito. Não quero mais", revelei.

Pronto. Estava solucionado o enigma: duas filas por dia me faziam perder todo o intervalo. Minha mãe, que toda vez se diverte com a história, sempre complementa no final, até quando repete o caso hoje. "Esse menino era muito certinho na época, né?", finaliza, com um sorriso largo de orgulho pela boa criação do menino. Sim, mãe. Até hoje eu sou meio certinho assim, apesar de não entrar mais em filas para devolver engradados de refrigerante.

Por Julio Simões, em 3 de abril de 2008.

ps. O texto acima é um trabalho da faculdade. Quando sair a nota, atualizo.

Mulheres super-poderosas

A sala ainda estava se acalmando quando ela chegou. Morena, alta e fina, andava em cima de um salto que seduzia só com seu ritmado toc-toc. Desviou das cadeiras mexendo a cintura com elegância, sentou-se e abriu o caderno. Nesse percurso, a sala inteira parou para observar a nova musa. Os meninos entortaram o pescoço de leve, enquanto as meninas disfarçaram o ódio olhando de soslaio. Naquela hora, a Terra girou mais lenta e os segundos demoraram a avançar.

A cena descrita acima, embasbacado leitor e revoltada leitora, é o efeito causado por elas, as mulheres super-poderosas. Para muitos, elas são o maior sonho de consumo e, ao mesmo tempo, o maior receio em forma de mulher. Afinal, não se sabe qual será a reação dela a qualquer comentário seu. Ao mesmo tempo em que elas podem simplesmente sorrir e fazer seu dia mais feliz, também podem franzir a testa e riscá-lo de vez de sua lista de contatos.

Mais do que isso, elas parecem não ter coração. Alguns arriscam em dizer que elas não são reais, apenas mais uma criação da televisão. Porém, há relatos de aparecimentos de mulheres-superpoderosas em alguns lugares do globo. E outra: para elas, os recursos masculinos de "flores, bombons e palavras bonitas" parecem não ter efeito. Em suma, só os verdadeiros escolhidos por elas podem alcançar a glória. Não basta saber dançar ou tocar violão. Precisa ser "o" escolhido.

Enfim. Talvez conquistar ou simplesmente ter uma mulher dessas seja mais difícil do que ganhar na Mega Sena, ser atingido por um raio dentro de um carro, fazer uma moeda cair em pé depois de jogar para cima, passar no vestibular de medicina ou cair do sétimo andar e sobreviver. Ainda não sei, mas suspeito que seja.

Velhos amigos

Confesso que não foi apenas o olhar, as emoções e as ações do personagem Léo, brilhantemente interpretado por Dan Stulbach, que me fizeram praticamente venerar a minissérie global Queridos Amigos. Desde que ela entrou em cartaz (sim, porque está mais para um belo filme do que uma mera novela) eu comento com todo mundo quando posso.

Tenho certeza que também não foram apenas as boas interpretações de Matheus Nachtergaele (como o comunista Tito) ou Bruno Garcia (como o barbudo escritor Pedro Novais) que me fizeram querer estar à frente da televisão em quase todo fim de noite, após mais um capítulo do monótono Big Brother Brasil.

Na verdade, o que me fez gostar tanto da trama foram, sim, os queridos amigos. Perdão pela tentativa infâme do trocadilho, mas foi isso. O fato de Léo sonhar com a própria morte e passar a buscar obsessivamente viver mais próximo dos antigos amigos, tentando reconciliá-los e fazendo com que eles também se valorizassem mais, é que me fez chegar aqui.

A primeira coisa que eu pensei quando vi o primeiro capítulo, que você pode conferir lá embaixo, foi nos meus antigos amigos. Alguns deles eu conheço desde quando eu nasci, praticamente. Outros, fui agregando ao longo da vida. Todos eles tem um peso especial para mim, e me fazem praticamente "mover montanhas" para encontrá-los.

Um deles se formou em engenharia ambiental no começo deste ano e eu vejo pouquíssimas vezes, muito por conta das minhas raras visitas à cidade que por anos serviu como cenário de nossas vidas, mas também pela distância dele da terrinha. E este também é o motivo que me afasta de outros grandes amigos, como o que faz relacões internacionais, o que faz agronomia e do que já se formou em ciências contábeis.

São eles quatro, somados a outras figuras importantes cuja referência não será feita por mera falta de espaço, que me vieram a cabeça quando a minissérie começou. As reflexões, então, foram inevitáveis. Até quando vou ter notícias deles, se cada vez mais eu me afundo em compromissos e responsabilidades, assim como eles também nas suas obrigações? Até quando eu vou ter pique para fazer o possível para revê-los? Não sei, infelizmente.

Agora pense você nos seus. Isso, seus amigos de longa data, aqueles que, por força do destino, você precisou deixar. Não é triste saber que você não terá nada além de notícias vagas deles? Eles vão se mudar de cidade, trocar de emprego, trabalhar com coisas que você provavelmente não trabalharia, casar, ter filhos. E você, que também vai passar por tudo isso, só ficará sabendo bem depois. Vai se sentir bem por um instante, por eles, mas logo em seguida volta a ser sozinho.

Triste, eu sei. Agora pense adiante. Você tem amigos hoje, convive com eles quase diariamente, vive coisas maravilhosas e memoráveis a todo momento. Só que um dia os vínculos se quebram, vocês são obrigados a parar de conviver no mesmo ambiente, geralmente porque o que faziam em comum se encerrou. Aí começa tudo de novo. Enfim. Será preciso estar perto da morte para tentar ter novamente os velhos amigos por perto? Será esta a condição de todos nós?

Mãe é mãe

Da série "Tem coisas que só sua mãe faz por você".

Cena 1 (no sofá da sala)
- Mãe, você acha que eu estou meio gordinho?
- Hum... gordinho? Não, acho que você tá forte.

CORTA!

Cena 2 (na cozinha)
- Filho, você vai voltar pra cá quando se formar, é?
- Não, mãe. Fazer o quê aqui?
- Ah, sei lá. Trabalhar?
- Com jornalismo?! Em Promissão?!
- É, ué...
- Mãe!

CORTA!

Post dedicado à sincera Euny Silvestre Simões. Obrigado, mãe!

7list: Na cabeça

O 7list (pegou a sacadinha?) é a nova seção quase fixa do Despojo e será dedicada à música - pelo menos à princípio. A intenção é listar sete músicas ou artistas e explicar, se possível em sete linhas, o porquê daquela música estar ali. Neste caso, as músicas desta primeira edição não terão nenhuma ligação entre si, apenas o fato de serem as mais ouvidas por mim nos últimos tempos. Enjoy!

1. The Wombats - Let's dance to Joy Division

Biologicamente, Wombats são marsupiais da Austrália - salve Google! Musicalmente, são um power-trio de Liverpool que faz um som parecido com Kaiser Chiefs e Bloc Party (só para citar duas bandas), ou seja, um roquinho moderno, aparentemente sujo e com pitadas eletrônicas. Parece uma descrição que se encaixaria em outras cinco mil bandas novas? Talvez. Agora, alguém pode me explicar porque eu tenho gostado tanto deles a ponto de assoviar Let's Dance to Joy Division?

Quem? The Wombats
Quando? Desde 2003
Onde? Liverpool, Inglaterra
Como? Conheceram-se na Liverpool Institute of Performing Arts (LIPA), escola de artes fundada por um tal Paul McCartney.
Por que? Só o fato deles viajarem uma turnê toda pela Inglaterra nesse carrinho seria o suficiente para classificá-los como uma banda legal. Mas eles fazem um bom som, acima de tudo.

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2. Toranja - Musica de filme

A música portuguesa, pelo menos para a maioria dos brasileiros, vai pouco além do gajo Roberto Leal. Pois cá estão Toranja para quebrar esse estigma. Apostando no rock com letras sensíveis e bem construída, tudo aliado a sonoridade suave e firme ao mesmo tempo, o quarteto português é destaque na terrinha e até aqui, em além-mar. Os gajos estiveram no país tropical em 2006 para tocar com o Los Hermanos - a sonoridade é semelhante e ambos tiveram Kassin como produtor musical.

Quem? Toranja
Quando? 2003-2006 (pausa por “tempo indeterminado”, tal qual Los Hermanos)
Onde? Lisboa, Portugal
Como? Os Toranja, como são chamados, gravaram o primeiro CD (“Esquissos”, que em português de Portugal é sinônimo de esboço) com o intuito de manter a essência. Com o sucesso, gravaram o álbum mais maduro da curta carreira, intitulado “Segundo”. Tempo depois, apesar do sucesso, decidiram parar por “incompatibilidade” (alguém falou Los Hermanos?).
Por que? As letras são geniais, bem sacadas. A sonoridade é um rock que intercala romance e peso. Mas o bom deles mesmo, admito, é o sotaque português, ó pá!

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3. Cake - Sad songs and waltzes

O fato de ter começado em 1991 faz do Cake uma banda veterana – afinal, lá se vão quase 20 anos de carreira! Porém, existe algo na música dos caras que os torna únicos. Seria a junção de guitarras ora simples, ora frenéticas com os arranjos dos metais? Seriam as melodias gostosas? Seriam as letras debochadas? Não sei, mas acho que deve ser a personalidade única. Enfim, desde então foram inúmeras trocas de membros e cinco álbuns de estúdio, sendo Fashion Nugget (1996) a minha indicação.

Quem? Cake (mais escrito em maiúsculas: CAKE)
Quando? Desde 1991
Onde? Sacramento, Estados Unidos
Como? Cansado de ser guitarrista de “aluguel”, John McCrea decidiu se mudar para Los Angeles e fundar a Cake, que na verdade era formada apenas por ele e durou um show nessa formação. Depois, de volta a Sacramento, decidiu recrutar alguns amigos para a missão. Da formação inicial, apenas o trumpetista Vince di Fiore segue na banda.
Por que? Só pelo fato de unir funk, pop, jazz, rap e country numa melodia só – e tão bem! – já é suficiente para me fazer gostar.

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4. Mallu Magalhães - Tchubaruba

Eu nasci em 1986, logo tenho 21 anos. Ela nasceu em 1992, logo tem 15 anos. Eu toco violão há seis anos, mas nunca fiz uma melodia decente sequer. Ela toca violão há seis anos, mas já é uma promessa do folk rock nacional. Ela é Mallu Magalhães, uma menina que cursa a primeira série do ensino médio, gosta de gente do calibre de Bob Dylan, The Beatles e Johnny Cash e estourou após gravar quatro músicas próprias em estúdio, com o dinheiro do aniversário de 15 anos. Só isso já valia conferir suas composições ensolaradas.

Quem? Mallu Magalhães
Quando? Desde 2007
Onde? São Paulo, Brasil
Como? No seu último aniversário, em 29 de agosto de 2007, a pequena Maria Luisa de Arruda Botelho Pereira de Magalhães pediu dinheiro ao invés de presentes e gravou suas quatro composições, todas em inglês. Desde então, faz shows em casas noturnas conceituadas da capital. Só que tudo antes da meia-noite, claro, afinal ela tem só 15 anos.
Por que? Pela audácia, pela música simples e cativante, e pela inteligência que parece ter.

MySpace - Wikipedia - Reportagem G1

5. Weezer - Perfect Situation

O que esperar de uma banda cujo vocalista cursa literatura inglesa na famosa Universidade de Harvard? Alguma música clássica? Não. O nerd Rivers Cuomo, fundador do Weezer, contraria isso e faz um punk rock clássico: guitarras enérgicas, músicas simples e ritmos cativantes. Alguém até pode acusar o Weezer de parecer um pouco adolescente demais para a idade dos músicos. Sim, mas e daí? Quem nunca teve vontade de prolongar sua fase adolescente? Para isso, o Weezer parece ser uma boa trilha sonora.

Quem? Weezer
Quando? De 1992 a 1997, quando deram um tempo. Voltaram em 2000 e ainda estão na ativa.
Onde? Los Angeles, Estados Unidos.
Como? O quarteto se reuniu pela primeira vez em 1992. Tocaram em pequenos clubes, lançaram o primeiro disco dois anos depois e estouraram com Buddy Holly e Say it Ain't So. As trocas na formação e o lançamento de um álbum bastante criticado (Pinkerton), porém, os fizeram repensar a carreira. Após três anos de pausa, lançaram três albuns. Em 2005, tocaram pela primeira vez no Brasil - detalhe: só em Curitiba.
Por que? O ritmo da banda é o que mais me cativa. Além do som, o fato de ser um bando de nerds tocando guitarra também me chama a atenção.

Site oficial - Myspace - Wikipedia

6. Matt Costa - Mr. Pitful

Apesar do sobrenome, ele não é nem português e nem brasileiro, mas sim norte-americano (a família tem origem portuguesa). Faz um folk-rock à la Jack Johnson, de quem é amigo, mas não tão violão-voz baixinha. Para começar, vale ouvir a cativante Mr. Pitful. O curioso é que o músico já esteve no Brasil no fim de 2007, quando tocou sem muito alarde em São Paulo, Rio e Florianópolis. Talvez o fato de fazer parte da turnê de outro amigo, Donovan Frankenreiter, tenha ofuscado sua passagem pelo país.

Quem? Matt Costa
Quando? Desde 2003
Onde? Cypress, Estados Unidos.
Como? Tudo começou com uma trágedia. Matt Costa era skatista profissional até 2003, quando sofreu grave acidente e precisou ficar parado por um ano e meio, tempo em que passou a se dedicar à musica. Em 2005, lançou seu primeiro CD e excursionou com Jack Johnson, com quem gravou Lullaby, faixa do CD do filme Curious George. Em 2007, além da turnê pela América do Sul, também gravou uma música exclusiva para uma campanha de proteção aos ursos polares.
Por que? Não há outra resposta para ter gostado dele a não ser por Mr. Pitful. De resto, parece ser mais um cantor californiano normal.

Site oficial - Myspace - Wikipedia

7. Ira! - Mariana foi pro mar

Todo mundo conhece o Ira!, logo a banda paulistana que completou 26 anos de carreira (!) em 2007, ano em que anunciou seu fim, dispensa apresentações. A questão é essa música, Mariana foi pro mar, do último e derradeiro álbum Invisível DJ. Há tempos eu não ouvia uma música com letra tão engenhosa e ritmo coerente. É meio folk, daqueles que você bate o pé para acompanhar o ritmo. Enfim. O fato é que, queira ou não, a voz rouca e forte de Nasi e o talento de Edgard Scandurra na guitarra já fazem falta.

Quem? Ira!
Quando? 1981-2007
Onde? São Paulo, Brasil
Como? Sim, eles eram amigos no começo. Influenciado pela situação política da época, Edgard juntou-se ao amigo Dino e a um sujeito de roupas estranhas que também estudava no mesmo colégio para formar uma banda. Era Nasi, que virou amigo e vocalista do Ira (inspirado no Exército Republicano Irlandês, ainda sem !). Um ano depois, começaram a fazer o sucesso que os manteria na estrada por mais de 20 anos. Em 2007, Nasi brigou com o irmão e empresário e ainda viu o pai pedir sua internação alegando loucura. Agora, seus integrantes seguem em projetos paralelos.
Por que? A voz de Nasi + as guitarras de Edgard Scandurra = melhor rock paulistano já produzido.

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Eu vou salvar o Juventus!

Acabo de chegar da Rua Javari, na Mooca, onde assisti a mais um jogo do Juventus. O Moleque Travesso voltou a vencer após sete rodadas - bateu o Paulista de Jundiaí por 2 a 1 num jogo sofrido - e eu já começo a acreditar que é por minha causa.

Nas quatro vezes em que vi o time no estádio Conde Rodolfo Crepi, lugar que eu adoro ainda mais cada vez que vou, o time venceu ou empatou. Primeiro, foi o empate sem gols com o Democrata-MG pela rodada de abertura da Série C do Campeonato Brasileiro do ano passado.

Depois, foi a heróica vitória sobre o Linense (neste dia, excepcionalmente, estive na torcida adversária) pela Copa FPF, já este ano. Na seqüência, acompanhei outro empate sem gols com o Barueri, num domingo de manhã em que estava de folga.

Isso sem contar a vitória sobre o Santos, em partida disputada em Santo André, em que tive o prazer de descer os elevadores do estádio - fui a trabalho! - com o presidente juventino Armando Raucci. O simpático dirigente era só alegria e sarro pra cima do santista Émerson Leão.

Enfim. Por essas e outras é que eu cheguei a conclusão de que preciso salvar o Juventus do rebaixamento à Série A-2 do Campeonato Paulista. O time está em 16º lugar (graças à vitória de hoje), mas ainda está muito ameaçado.

Por isso, já estou cogitando comprar minha camisa do Juventus (R$25 a extra-oficial, toda grená e com o símbolo pequeno no peito; ou R$20 a pirata, com a típica frase "Mooca é Mooca" nas costas) e voltar à Javari novamente no dia 26, para o jogo com o Rio Preto. E isso porque eu nem falei dos maravilhosos canoles de chocolate e creme...

Controle de qualidade

Numa cama qualquer, numa noite qualquer, duas vidas quaisquer.

- Ah... ah... ah... ooooooooooooooooooooooooooooooooohhhhhhhhhh!
- Uhf.
(...)
- Ai amor, você foi ótimo.
- Ah, linda. Graças a você, né?
- Ah, estou tãããããããããão leve!
- Então aproveite e complete isso aqui para mim, querida.
- O que é isso, hein?
- Leia.
- Mmm... “Controle de qualidade: escreva abaixo o que quer melhorar em nosso atendimento ou em algum produto específico”
- Isso mesmo.
- O que é, hein amore?
- Ué. Um formulário de “Como estamos atendendo”.
- E daí?
- E daí que eu acho importante ter uma resposta daqueles que me usam.
- Tem mais alguém te usando, amor?
- Não, linda. É só para eu melhorar como pessoa. Sabe como é a concorrência hoje em dia, né?
- Sei, sei...
- Escreve, vai. Escreve o que você quiser, pode fazer críticas!
- Mas...
- Escreve, por favor. Preciso saber o que você pensa de mim!
- Mas eu já disse, meu amor. Não tenho do que me queixar.
- Ah, deve ter sim. Pense! Toalhas molhadas na cama, roupas jogadas no armário, latas de cervejas espalhadas pelos cantos, o jardim que eu nunca cuido. Vai!
- Não, amore... vem cá, vem, deixa esse formulário pra lá.
- Não, claro que não!
- Ah, é? Então tá bom. Dá aqui esse papelzinho. A caneta também, vai.

Controle de qualidade
Escreva abaixo o que quer melhorar em nosso atendimento ou em algum produto específico:

Só quero que você vá tomar no cu.


- Amor!
- Ooooi? (risos)
- O seu pedido foi negado pela direção do estabelecimento.
- Ah é, é? E o que o gerente vai fazer, hein?
- Nem te conto. Vem cá, vem...

Por Julio Simões, em 13 de fevereiro de 2008.

Fazer o quê?

Segundo a Wikipedia, moratória "consiste no ato unilateral de um Estado declarar a suspensão do pagamento dos serviços da sua dívida externa".

Já uma pesquisa rápida no Google indica que o preço de um rim é superior a US$ 100 mil.

De duas, uma. Não há como não pensar nessas coisas quando as contas - só de telefone, meudeusdocéu! - chegam à bagatela de R$ 270.

* Quer ajudar? Doe dinheiro ou vote na enquete ao lado. Deus lhe pague.

Foi

Eram dias chuvosos. Não se sabia bem o porquê, afinal era verão. O homem do tempo nunca havia sido tão assistido e ninguém – nem mesmos os metereologistas - sabia explicar o motivo de tal tempo ruim. O céu ficava encoberto o dia todo, do nascer do tímido sol ao poente sem brilho. Da janela, apenas uma moça olhava o céu, com uma caneta BIC na mão, o rosto em lágrimas e sangue nos pulsos. Era Alice.

“Querido. Escrevo estas linhas tortas pra você sem forças. Desde que você saiu sem dizer aonde ia, quando voltava, tudo sem explicação, eu não passo um minuto sem pensar em você. Isso me consome. Quero saber se está bem, o que está acontecendo com você aí, onde quer que esteja. Eu sei que você não faz o mesmo, e que a esta hora deve estar em outro lugar melhor que nossa casinha. Desde que você saiu – e eu não sei precisar os dias, desculpe – eu não sei o que fazer. Imagino cenas e não consigo controla-las. Você chegando, dizendo para esquecer o que passou e se concentrar em nós. Ah, como eu gostava dessa palavra: nós. E você vem com uma flor, que conseguira roubar no jardim da frente. É a flor mais linda do mundo. Eu te olho, você me olha. O mesmo olhar terno que me dera no nosso último beijo. É algo que soa como ‘voltei para ficar’. Você não diz nada, claro, apenas observa a minha reação. Eu me tranqüilizo. Nossos olhos ficam focados um no outro, como se o restante não importasse. Não importa mesmo, você voltou. (pausa – é, você sabe, eu tenho mania de imaginar a vida como no cinema) Agora eu estou aqui, sozinha. Há dias não como nada direito. Há dias eu não durmo na cama – tenho usado um colchãozinho na sala ou dormido no chão mesmo. Há dias eu olho para o nada. Há dias eu tenho a impressão que não respiro. Momentos atrás, meu bem, eu fui à cozinha e pensei em me matar. Juro. Nada faz sentido sem você. Se não tenho você, então, posso parar por aqui mesmo. Quase fiz isso, querido. No final, senti mais uma daquelas fraquezas – tem sido freqüentes, sabia? – e não consegui. O máximo que consegui foi pensar em pegar um papel e escrever pra você. Eu não sei onde você está e esta carta não vai sair de casa, mas eu precisava te dizer como eu estava. Precisava te contar meu dia, como fazíamos todo sempre que você voltava do trabalho. E agora pronto, já foi. Não muda nada, você não me quer e não vai ser uma carta de amor que vai trazer você de volta. Eu só queria ser feliz. E você estava nos meus planos. Beijos (porque eu não consigo mais escrever sem soluçar) “de sua ‘linda menina’”, como você costumava me chamar, Alice”

E com o papel na mão, ainda olhava a janela. Ventava forte e a chuva rotineira parecia próxima mais uma vez. Alice ainda não sabia o que fazer da vida. E do 12° andar de seu prédio, largou o papel e apenas o assistiu voar pela cidade. Ficou segundos, minutos, horas olhando o horizonte, como se visse o papel voar até ele. Depois, fechou delicadamente a janela e voltou a deitar no chão, de tacos de madeira já surrados pelo tempo e já familiares a ela.

Por Julio Simões, em 13 de fevereiro de 2008.