A sala ainda estava se acalmando quando ela chegou. Morena, alta e fina, andava em cima de um salto que seduzia só com seu ritmado toc-toc. Desviou das cadeiras mexendo a cintura com elegância, sentou-se e abriu o caderno. Nesse percurso, a sala inteira parou para observar a nova musa. Os meninos entortaram o pescoço de leve, enquanto as meninas disfarçaram o ódio olhando de soslaio. Naquela hora, a Terra girou mais lenta e os segundos demoraram a avançar.
A cena descrita acima, embasbacado leitor e revoltada leitora, é o efeito causado por elas, as mulheres super-poderosas. Para muitos, elas são o maior sonho de consumo e, ao mesmo tempo, o maior receio em forma de mulher. Afinal, não se sabe qual será a reação dela a qualquer comentário seu. Ao mesmo tempo em que elas podem simplesmente sorrir e fazer seu dia mais feliz, também podem franzir a testa e riscá-lo de vez de sua lista de contatos.
Mais do que isso, elas parecem não ter coração. Alguns arriscam em dizer que elas não são reais, apenas mais uma criação da televisão. Porém, há relatos de aparecimentos de mulheres-superpoderosas em alguns lugares do globo. E outra: para elas, os recursos masculinos de "flores, bombons e palavras bonitas" parecem não ter efeito. Em suma, só os verdadeiros escolhidos por elas podem alcançar a glória. Não basta saber dançar ou tocar violão. Precisa ser "o" escolhido.
Enfim. Talvez conquistar ou simplesmente ter uma mulher dessas seja mais difícil do que ganhar na Mega Sena, ser atingido por um raio dentro de um carro, fazer uma moeda cair em pé depois de jogar para cima, passar no vestibular de medicina ou cair do sétimo andar e sobreviver. Ainda não sei, mas suspeito que seja.
Mulheres super-poderosas
29.3.08 Por Julio Simões às 12:44 2 comentários
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Política do “leite-quente-dá-dor-de-dente”
Sempre que vou ao Paraná, mais precisamente à minha querida Castro, volto falando o dialeto típico local. Inevitável. É aquela coisa bem “leite quente dá dor de dente na gente”, sabe? Só que essa frase, apesar de acentuar bem a principal característica sulista (experimente falar em voz alta e fixar bem as letras E), não quer dizer nada.
Sério. Eu nunca vi ninguém para lá da divisa falar essa frase com algum significado. Não serve para pedir nada, nem sequer para reclamar da alta temperatura do líqüido – e que ainda não sei se dá mesmo dor de dente! No máximo, ela é reproduzida por algum forasteiro quando repara o quanto é engraçado ouvir o sotaque do Sul.
Só que, salvo os dialetos típicos do Rio Grande do Sul (o “gauchês”) e algum que desconheço de Santa Catarina, há no Paraná uma série de frases típicas. Coisas que eu só ouço dos meus tios, das primas, da vó. Minha pesquisa não aprofundou-se a ponto de saber se elas são ditas em todas as regiões do estado, mas em Castro eu garanto.
Abaixo, cataloguei algumas expressões que gosto do Paraná e sua tradução. Com vocês, o pequeno dicionário paranaensês:
QUE TAR! (lê-se 'que taaaaar') 1. Expressão utilizada quando se quer mostrar admiração por algo realmente impressionante. Em alguns casos, a frase demonstra um quê de inveja com relação a tal fato dito pelo interlocutor.
LOCO DE BOM (lê-se 'locodêbom') 1. Expressão utilizada (inclusive por mim, mesmo aqui em São Paulo) para demonstrar que alguma coisa é boa demais. 2. Sinônimo de “excelente”.
DIZ QUE... (lê-se 'disque', tal qual o serviço de delivery) 1. Estrutura utilizada única e exclusivamente para fofoca. É dita quando se quer falar algo de terceiros, mas que é preciso sigilo.
CAPAZ! (lê-se 'ca-paaaaaz', estilo Xaropinho, seguido de uma cara de assustado) 1. Expressão utilizada para demonstrar surpresa com algo que foi dito. 2. Sinônimo de “não é possível”.
FRANCAMENTE! (lê-se 'fraaaaancamente') 1. Expressão utilizada para demonstrar indignação com relação a qualquer assunto.
TUDO TEM QUANTIA 1. Frase usada (pela minha vó, pelo menos) para dizer que as coisas tem limites. 2. Sinônimo de “tudo tem limite”.
COMA BEM BONITINHO (lê-se 'coma beeeeeem bonitinho') 1. Frase usada (também pela minha vó) para orientar crianças (os netos, no caso) sobre como se comportar à mesa.
...ANDINHO 1. Uso de diminutivos são bastante comuns e podem ser aplicados a qualquer palavra, à gosto do freguês. 2. Exemplos: andandinhos, passeandinhos, namorandinhos, olhandinhos.
Além dessas, existem outras expressões interessantes típicas do povo paranaense, como “loco véio”, “tongo”, “lazarento”, “mais firme que palanque em banhado”, “vina” e até “ornando”.
Enfim, um paraíso de palavras específicas do Paraná. Agora, com este pequeno dicionário paranaensês, você, caro leitor paulista/paulistano, pode sair por aí falandinho com os loco véio. Porque diz que é loco de bom. Francamente!
22.1.08 Por Julio Simões às 12:39 2 comentários
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Pequenas teorias cotidianas II: a gravidade e os celulares
Não é difícil ver aquela cena terrível: o desligado esbarra ou deixa cair seu celular de ultimíssima geração no chão de paralelepípedo, na piscina ou de uma altura equivalente a um prédio de quinze andares. Tirando a segunda opção, que envolve água, garanto que é possível salvar seu celular dessas situações sempre constrangedoras. Graças a uma extensa pesquisa, conclui mais uma pequena teoria cotidiana digna de estar em qualquer caderno científico.
O princípio básico da tese, meu caro, é ter absoluto desprezo pelo aparelhinho no momento seguinte a queda, mesmo que ele tenha custado toda o seu fraco salário de estagiário (acumulado durante o ano todo, diga-se de passagem). Explico: celulares tem personalidade, tem coração. E o momento de descuido do dono é quando eles aproveitam para saber se são amados ou não. Assim, quando um celular cai no chão, a reação dele é se fazer de frágil, desprotegido. Um ator, praticamente.
Só que se você dá a atenção que ele quer - ou seja, morde a isca do safado - ele se desmancha todo ali mesmo, no chão. Literalmente até, eu diria. Com isso, os astutos pesquisadores concluiram que, se você não der a mínima para o aparelho quando este cair no chão, ele se manterá intacto. Decepcionado com sua reação fria, mas ainda intacto. No máximo, vai ganhar uns arranhõezinhos, mas nada que o leve à assistência técnica, lugar tão temido por eles quanto o veterinário para os cães.
Desde que suspeitei desta pequena tese cotidiana, agora provada por A + B pelos tecno-cientistas, nunca mais deixei o meu Siemens fazer esse "joguinho" barato. Talvez por isso ele ainda continue ativo após algumas quedinhas. A bateria dele está um pouco fora do lugar, é verdade, mas ele ainda faz ligações e manda mensagens. É de se admirar, porém, que só agora um estudo dessa magnitude tenha vindo a público. É tão importante quanto saber quais as conseqüências do desmatamento da Amazônia. Fundamental, diria.
20.7.07 Por Julio Simões às 11:29 1 comentários
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Pequenas teorias cotidianas I: All Star branco
Poucas pessoas reparam nos pés das pessoas, principalmente no que elas calçam. Eu também não, mas de um tempo para cá tenho formulado uma tese sobre calçados do sexo feminino: a teoria do All Star branco. O estudo nada científico se baseia exclusivamente em observação. Foram inúmeros exemplos colhidos antes da publicação deste documento, que promete abalar a comunidade científica internacional.
A questão tratada é que os tênis desta marca e da cor branca são, em quase todos os casos, um indicativo que a jovem portadora do calçado é interessante. Em outras palavras, as moças que exibem por aí um All-Star branco no pé são, a princípio, belas e simpáticas. Pode começar a reparar, meu caro. É sério: sempre quando simpatizo com uma jovem do sexo oposto por aí, constato que usa o tal tênis. Demorei para acreditar, mas faz sentido.
Explico: os tênis da marca All-Star são produzidos pela Converse, empresa norte-americana fundada em 1908 em Massachussets. Dentre os mais vendidos, estão as cores vermelhas, azuis e pretos. Como podem ver, nada de branco na lista. Até porque a cor suja fácil - talvez aí esteja o charme do próprio calçado, sei lá, mas não vem ao caso. Mesmo assim, isso foi encarado pelos pesquisadores como sendo um processo de seleção natural.
É provável que o fato das interessantes jovens usarem o tal tênis esteja ligado a vestimenta das mesmas e ao estilo moderno imposto pela globalização. Mesmo assim, por que então estas não optam por tênis desta marca, porém de outra cor? Por que branco, meu Deus? Segundo especialistas, a resposta está no inconsciente feminino, que vê na simplicidade do objeto um representação de si. Afinal, as mais interessantes são despojadas.
Enfim. Desde que cheguei a conclusão desta pequena tese cotidiana, não vejo mais os pés - última parte a ser observada pelo sexo masculino heterossexual - como simples suporte da estrutura humana. É parte integrante da personalidade, pelo menos a feminina. É de se admirar que só agora um estudo dessa magnitude tenha vindo a público. É tão importante quanto saber quais as conseqüências do derretimento das geleiras. Fundamental, diria.
7.6.07 Por Julio Simões às 16:30 6 comentários
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