Decisões

Tinha os olhos vermelhos, marejados de emoção. Mãos trêmulas se movimentavam freneticamente. Paletó preto e torto, camisa branca levemente amassada. Ainda não tinha colocado a gravata.
Certamente era o dia mais feliz da sua vida, à exceção de quando conseguira seu primeiro emprego e quando conhecera Lúcia. Aliás, ela era um dos motivos para ele estar ali, sentado num banco de madeira já castigado, com as mãos frias e o rosto avermelhado. Sozinho, numa sala ao fundo da capela, olhava o rádio antigo narrando sua outra paixão.
Era o dia mais feliz da sua vida e também o mais difícil de enfrentar. Não pelo casamento, delicadamente preparado pela futura esposa, mas pela final de campeonato que acontecia ao mesmo tempo.
Como poderia adivinhar que o pequeno América de Tangamandápio chegaria à final do Regional? E justamente no dia do se casamento! Largar a carinhosa esposa sozinha ao altar seria um erro. Tentar mudar a data do casamento faltando uma semana só evocaria a fúria da mulher amada. O jeito era ouvir pelo rádio do padre, também torcedor do Ameriquinha.
Começa o casamento, a bola rola. Entra a noiva, o time saúda a torcida. A música nupcial cortava o silêncio, os fanáticos espectadores entoavam o glorioso hino do time. Começa o jogo.
Enquanto o padre falava, o celular do apaixonado apitava. Era sinal de que alguma coisa acontecia no jogo. Olhou discretamente para o bolso da calça e... um a zero, e pro América!
Nisso, não conteve a euforia que o dominava, não agüentava ficar calado diante de tal resultado. De repente, cortando o silêncio típico de uma igreja, ele sentiu toda a força de sua paixão pelo time saindo pela boca:
“Goooooooooooool!”, fez ecoar pela capela adentro. Naquela hora, correu para o fundo do local e foi conferir o tento no radinho. A igrejinha ficou perplexa, imaginando que ele abandonaria o ritual tão aguardado pelo futebol.
Mas ele voltou, acelerou-se a cerimônia e assim que o também fanático padre proclamou o tradicional “declaro-os marido e mulher”, o homem que se dividia entre duas paixões foi comemorar o título nas ruas, sem lembrar que agora tinha responsabilidades de homem casado a cumprir.
“Mas foi por uma boa causa, Lúcia”.

autoria: Julio Simões - provavelmente 23/08/2005

2 comentários:

Allan disse...

Texto muito bem escrito, Julio!
Continue com seu blog!

Ju disse...

"Mas foi por uma boa causa, Lúcia”... Homens!!! >=S hehe

gostei do blog! de novo! =]