O retrato e a parede

O retrato ainda permanece sobre a mobília. Sempre quando acendo a luz, logo ao abrir a porta, o vejo do outro lado, sob a mesa. É uma foto linda: seus cabelos negros e cacheados soltos, óculos de cineasta, expressão descontraída. Deslumbrante. Só que a imagem que me fica na memória é outra.

Aconteceu logo nos primeiros dias, no auge da relação. Não me lembro do diálogo - e isso não deve realmente importar. Só sei que ela ria com os lábios deliciosamente provocantes e tinha no jeito de olhar, contraindo as pálpebras, um ar encantador. Lembro-me que ria de alguma coisa em mim, pena não saber do quê.

Quando então me olhou nos olhos e abriu os lábios para uma nova gargalhada, a peguei pelo braço. Tentou se livrar colocando as mãos por trás das costas. Não deu. Envolvi assim uma mão pela cintura e a outra por entre os cabelos, desarrumando-os. Em segundos, estávamos com os corpos colados junto a parede mais próxima.

O movimento das bocas, das mãos e a sincronia dos corpos se aceleravam cada vez mais. Não havia tempo para respiração. Pressionava-a contra a parede da sala com ritmo único. Aquela mesma parede que, hoje, me trouxe tais lembranças. Quanto mais a comprimia em meus braços, mais ela me puxava para dentro.

Não demorou para as roupas virarem acessórios dispensáveis ali. No intervalo quase inexistente entre uma peça e outra, ainda recebi um sorriso de prazer indescritível por qualquer linguagem. Talvez o maior gesto de amor já sentido. E nem mesmo o fato de estarmos em pé atrapalhou a melhor noite de nós dois.

Com ela entre a parede e mim, descobrimos o que é ser um só. Entre pernas, pêlos, mãos, sorrisos, olhares, sons e desesperos, fomos felizes. Hoje, dela, só ficou um retrato sobre a mobília e a parede. Intactos na memória.

Por Julio Simões, em 8 de junho de 2007.

2 comentários:

Fábio disse...

Belíssimo post. E quem não tem os seus "retratos" nessa vida, não é mesmo? Se não estiverem na parede, certamente estarão na memória.

Jo disse...

isso me faz lembrar do verso "na parede da memória essa lembrança é o quadro que dói mais" (da manjada Como nossos pais)...
História bem narrada, gosto de curtos momentos destrinchados em muitas palavras e sentimentos. Como vc bem sabe.
beijos