Protocolado e em três vias

Juarez sempre teve orgulho de ter dedicado a vida a ajudar as pessoas no combate a burocracia. Como agente do Ministério da Desburocratização, Juarez reunia - e eliminava - documentos que atrasassem qualquer procedimento legal ligado ao governo.

Anos e anos tentando melhorar a vida das pessoas, dedicando quase dez horas diárias a resolver problemas, e agora estava ali, a um dia da aposentadoria. Mas tudo bem: ele sentia o dever cumprido.

Naquela manhã, então, resolveu aproveitar a última folga e foi à padaria. Na fila, longa como nunca, duas senhoras travavam uma discussão quase filosófica.

- Lúcia, isso é culpa do governo.
- Claro, Cida, não dá para aceitar essa demora.
- É. Um simples documento de invalidez temporária e só.

Juarez ouviu, mas como era praxe nas suas folgas, não tratava de trabalho e preferiu ignorar o assunto. Passou longos minutos para conseguir ter os pães à mão. Depois, tomou a rua e viajou.

Viu as filas de emprego, dos restaurantes por quilo, da fézinha na lotérica, das compras no supermercado. Sentia que tudo o que fizera não havia mudado o mundo, como imaginava. E resolveu se matar.

Mudou o trajeto, pegou a fila do metrô lotado, chegou ao centro. Decidira se jogar do viaduto do Chá, ao meio-dia. Subiu num pedestal e esperou a hora destinada.

- Ei, você. - disse uma voz - Você mesmo, meu senhor.
- Eu? - virou Juarez, olhando a chegada do guarda.
- É. Vai se jogar agora?
- Sim, porque? Vai me segurar?
- Não. Mas o senhor não pode se matar daí.
- Não posso?
- Tem autorização?
- Autorização??? Desde quando...
- Desde o ano passado. O prefeito decretou um horário proibido, das nove às cinco acho.
- Como?
- É isso mesmo, das nove as cinco. Só com autorização da subprefeitura, talvez.

E Juarez, sempre tão correto e antiburocrático, simplificou e se jogou.

1 comentários:

Josie disse...

Legal. Você criou uma cena e um personagem semi-fictícios, para tratar da burocratização, como gosta. Criativo e sensível, e ainda, uma crítica original. De algum modo, me lembra Ítalo Calvino - ou engano-me?